A tensão entre as polícias e a indiferença do Estado
TER, 08/09/2015 - 10:50
“Existe, em âmbito nacional, um desejo da Polícia Militar de ser maior do que ela é. O secretário de Segurança Pública precisa ser contundente em colocar as polícias em seus devidos lugares”, diz o delegado George Melão
Jornal GGN – A criação da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo de uma força-tarefa para investigar a chacina de Osasco e Barueri acabou evidenciando a tensão nas relações entre as polícias Militar e Civil.
Depois do anúncio da iniciativa conjunta, delegados da Polícia Civil reclamaram na imprensa da atuação atropelada da Corregedoria da Polícia Militar, que fez uma investigação paralela, colocando em risco a segurança de testemunhas e prejudicando a coleta de provas.
A briga de jurisdições e atribuições também acabou revelando o descaso com que a Polícia Civil vem sendo tratada na política de Segurança Pública do Estado.
O Jornal GGN entrevistou o presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp), George Melão, que disse que a Polícia Militar atrapalhou e continua a atrapalhar as investigações do caso.
“Eles continuam tomando providências de polícia judiciária, que é função da Polícia Civil”, disse Melão. “A Polícia Civil pediu a prisão preventiva de um dos envolvidos, o Tribunal de Justiça de São Paulo negou. A Polícia Militar pediu a mesma coisa e o Tribunal de Justiça Militar concedeu. E o delegado de polícia que está cuidando do caso só tomou conhecimento pela imprensa”, reclamou.
Para ele, o interesse da PM não é de proteger seus agentes supostamente envolvidos nos homicídios, mas de se antecipar nas investigações e prender os malfeitores, provando que não precisa da Polícia Civil. “É uma briga de competências”, afirmou.
Mas garantiu que o pior de tudo é o descaso com que a Polícia Civil vem sendo tratada no Estado de São Paulo ao longo dos últimos anos. “O que dificulta a investigação é a falta de material humano e condições de trabalho”.
De acordo com ele, o Estado tem um déficit de 7301 policiais civis - contando delegados, peritos, investigadores, escrivães e carcereiros (cargo extinto em São Paulo por decreto do governador Geraldo Alckmin).
“O número de policiais civis do Estado de São Paulo é fixado por lei. E a última lei que aumentou os quadros da Polícia Civil é de 1994. De 94 pra cá, a população paulista cresceu 28%. Se somarmos o crescimento populacional e o déficit policial, para que possamos acompanhar a evolução do Estado, São Paulo deve contratar, hoje, 15 mil policiais civis”, relatou.
Atualmente, o efetivo da Polícia Civil no Estado é de pouco mais de 39 mil agentes. E o salário de delegado de polícia é um dos piores o Brasil. “O inicial é R$ 10.030. A média brasileira é entre R$ 15 e R$ 16 mil”, detalhou.
Com isso, muita gente desiste de registrar ocorrências, o que resulta em subnotificação. “Existe um interesse do Estado na subnotificação. Porque aí você derruba os índices de criminalidade”, acredita o delegado.
Para Melão, na outra ponta do esvaziamento da Polícia Civil, há uma tentativa da Polícia Militar de ganhar terreno. “Existe, em âmbito nacional, um desejo da Polícia Militar de ser maior do que ela é. O secretário de Segurança Pública precisa ser contundente em colocar as polícias em seus devidos lugares”.
E nesse ponto ele faz uma autocrítica. “A Polícia Civil não pode avançar também nas atribuições da Polícia Militar. Eu falo isso quando vejo uma viatura do Garra, uma viatura do GOE [Grupo de Operações Especiais], fazendo policiamento ostensivo. Não é essa a nossa especialidade. Eu recrimino. E seria papel do secretário de Segurança Pública inibir a invasão de atribuição de uma polícia na área da outra. E isso está muito aquém do secretário que se faz presente”, criticou.
Por fim, o presidente do Sindpesp disse que os delegados que estão disponíveis gastam até 65% do seu tempo orientando a população em casos que nem são de competência da polícia. “São casos familiares, da área social, que se resolvem com orientação. É um trabalho que poderia estar sendo feito por uma assistência social. Mas não tem assistência social dentro das delegacias.
Comentários
Parabéns GGN e ao jornalista
Por que manter o atual sistema policial ?
Estados Unidos
Estatística de inscritos no concurso da polícia civil do CE
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
PM e PC amigas da onça!
Perfeito
A solução mágica do momento é
O cargo de delegado é uma aberração
Uma "fábula"
Perfeito.
O caso do Ceará (governado, até o fim de 2014, por Cid Gomes)
O interesse no tema é
O Estado brasileiro não é