Essa e a verdadeira cara da nossa Segurança Publica

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

PMs presos por corrução passavam lista de herança como propina para novos policiais do esquema

 Agentes recebiam propina semanal e agiam durante expediente no batalhão da PM em Belford Roxo

Por Extra — Rio de Janeiro



A investigação do MPRJ que levou à prisão 10 policiais militares do 39º BPM (Belford Roxo), nessa quinta-feira, revelou um esquema de corrupção, com recebimento de dinheiro de comerciantes e milicianos em troca de proteção. Esses "padrinhos", como eram chamados, tinham os nomes identificados em listas, que eram passadas como herança aos agentes recém-chegados nos setores do batalhão.

"Mensagens trocadas e constantes do aparelho celular (interceptado pelo MPRJ) demonstram que sempre que há alguma mudança de lotação, policiais militares que eram integrantes de um determinado setor têm o dever repassar as informações dos “padrinhos” da área para os novos colegas daquele setor, sendo encaminhadas listas contendo o nome do estabelecimento achacado, o dia da semana que é feita a cobrança e o valor recebido pelos policiais militares", explica a denúncia do Grupo de Atuação Especial de Segurança Pública do Ministério Público do Rio de Janeiro (GAESP).

Foram presos e denunciados os policiais:

  1. Cabo Marcelo Elizeu de Maria Silva
  2. Cabo Wesley Soares Carvalho
  3. Cabo Marcio José Moreira Junior
  4. Soldado Robert Braga Correa
  5. Cabo Luiz Isaac Muniz Costa
  6. Cabo Geovane de Jesus Ramos
  7. Soldado Juan Herbert da Silva
  8. Cabo Anderson Colen dos Santos
  9. Cabo Ramon da Rocha Gomes
  10. 3º sargento Luciano Abreu Canto

Em nota, a PMERJ reiterou que "não compactua com desvios de conduta ou crimes praticados por seus integrantes, punindo os responsáveis quando constatados os fatos".

A operação desta quinta contou com apoio da Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI/MPRJ) e da Corregedoria da Polícia Militar. Mandados de busca e apreensão também foram cumpridos nos endereços ligados aos PMs.

Propina de "melecas"

Segundo a denúncia, os agentes recebiam propina em forma de semanadas, com valores entre R$ 20 a R$ 300 a depender do tipo de comércio — pontos de mototáxi, farmácias, lotéricas, mercados e depósitos —, entre 2022 e 2024. Os donos desses estabelecimentos eram chamados pelos policiais de "padrinhos".

Com base na quebra de sigilo telefônico, os promotores também descobriram que milicianos da Baixada pagavam para não serem incomodados pelos policiais. As negociações aconteciam diretamente ou por meio de intermediários. Nas conversas interceptadas, revelou-se que os agentes chamavam os milicianos de "melecas".

"Tem um pessoal que, na sexta-feira, eles vão numas paradas aí que eu não vou. Por exemplo, tem um negócio lá de Nova Aurora, que é na padaria lá do... dos melecas lá? Tu não sabe qual é o nome do dono da padaria? O pessoal pega da padaria lá que tem que fazer contato, que é dos melecas. Eu não pego. Quem pega lá é o pessoal do setor (Bravo, do 39ºBPM) aí. Eles pegam a minha parte, dividem entre eles, não sei o que eles fazem não", transcreve a denúncia.

No diálogo, aparecem também orientações de como os agentes deveriam se portar no estabelecimento, priorizando o contato direto com o proprietário:

"Tem que falar com o dono lá. Fala: 'Pô, mano, tô no (setor) Bravo, vim pegar um negócio aí...' . Eu acho que ele agenda um horário contigo um dia, e tu passa e pega. Pelo menos é assim que o moleque fala pra mim que faz".

A denúncia também chama atenção para o fato de os agentes fazerem as cobranças uniformizados, durante o expediente e com uso de viaturas e armamentos, em uma verdadeira "subversão da lógica da segurança pública".

"Portanto, policiais militares, que deveriam proteger a população sem cobrar qualquer valor, recebem, solicitam ou exigem de prestadores de atividades econômicas o pagamento de taxas para, justamente, prover o serviço de segurança, no exercício de suas funções e utilizando-se de viatura, uniforme e armamento da Corporação. Assim, aqueles que pagam são efetivamente destinatários de uma 'atenção especial' dos policiais, o que, evidentemente, demonstra que aqueles que não pagam são prejudicados e devem contar apenas com a sorte".

11 denunciados em julho

Em julho de 2025, o Gaesp já havia denunciado outros 11 policiais militares lotados no 39º BPM, acusados de integrar organização criminosa que também extorquia dinheiro m troca de segurança. Agora, a nova denúncia atinge integrantes de outro setor da mesma unidade, identificados pela investigação como responsáveis por esquema semelhante de cobrança de propina e concessão de tratamento diferenciado a comerciantes e prestadores de serviços da região.

De acordo com a investigação, os lojistas que aderiam ao esquema ilegal eram chamados de "padrinhos". Esses apadrinhados recebiam atenção especial dos policiais militares, que passavam a comparecer aos comércios e guiar as rotas de policiamento ostensivo de forma a privilegiar esses locais. Ainda segundo a denúncia, a atuação criminosa dos PMs era ampla a ponto de, por vezes, estabelecimentos comerciais serem achacados por mais de um grupo de policiais do 39º BPM.

Notícias do Rio:

Operação Patrinus: denúncia aponta que PMs presos recebiam propina de milicianos, chamados de ‘melecas’

 O documento também aponta cobrança semanal de comerciantes, mototaxistas e prestadores de serviços, sempre durante o expediente e com uso de farda, viatura e armamento da corporação.

Por Jefferson Monteiro, Márcia Brasil, RJ1

MPRJ prende 10 PMs em nova fase da Operação Patrinus

MPRJ prende 10 PMs em nova fase da Operação Patrinus

Áudios e mensagens de celular obtidos pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) revelam detalhes do esquema de propina que levou à prisão de 10 policiais militares nesta quinta-feira (14), na 3ª fase da Operação Patrinus.

Segundo a denúncia, parte dos PMs do 39º BPM (Belford Roxorecebia dinheiro de milicianos atuantes na região de Itaipu, em Belford Roxo, para não reprimir suas atividades.

O documento também aponta cobrança semanal de comerciantes, mototaxistas e prestadores de serviços, sempre durante o expediente e com uso de farda, viatura e armamento da corporação.

‘Melecas’ e divisão do dinheiro

Em uma das gravações, um policial explica que um intermediário ficava com parte do valor arrecadado e que havia coleta em locais controlados por milicianos — chamados por eles de “melecas”:

“Tem um bagulho na sexta-feira aí que o pessoal pega lá da padaria... que é dos ‘melecas’. Eu não pego. Quem pega lá é o pessoal do setor.”

Para o MPRJ, os “melecas” citados são milicianos que também pagavam propina aos policiais.


MPRJ e a Corregedoria da PM cumprem mandados contra policiais — Foto: Reprodução/TV Globo

MPRJ e a Corregedoria da PM cumprem mandados contra policiais — Foto: Reprodução/TV Globo

Lista de ‘padrinhos’

Os comerciantes que pagavam pelo esquema eram chamados de “padrinhos” e tinham seus nomes e valores numa espécie de planilha informal. Num áudio, um PM pede:

“Pô, eu queria ver contigo, mané, os padrinhos que têm lá no Bravo... se tu tiver como mandar aí a listinha, te agradeço.”

Em resposta, outro policial envia a lista e alerta que precisava confirmar se dois mercados ainda estavam pagando. Os valores chegavam a R$ 450 por semana.

Disputa entre setores

As conversas também mostram disputas entre setores do batalhão pelo mesmo ponto de cobrança. Em um diálogo, um policial sugere:

“Em vez de a gente perder 30 pro Bravo e 30 pro Charlie, vai perder 60 pro Bravo, e aí fica bom, correto?”

Histórico da Patrinus

A 1ª fase da operação foi em maio de 2024, com 13 PMs presos por vender armas e drogas apreendidas e cobrar propina de comerciantes e motoristas. Em julho de 2025, nova etapa prendeu 9 policiais que faziam segurança privada armada durante o expediente.

Na etapa desta quinta-feira, o MPRJ reforçou que o esquema “configura uma verdadeira subversão da lógica da segurança pública” e que, em alguns casos, os PMs “passam a se comportar de forma mais semelhante a milicianos do que com agentes da lei”.