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quarta-feira, 6 de maio de 2026

PM Gisele: veja as 4 contradições no depoimento à polícia do coronel

 Preso pela morte da PM Gisele Santana, coronel Geraldo Neto mostrou contradições sobre posição da arma, do corpo e sangue na cena do crime

Reprodução
Imagem colorida mostra tenente-coronel preso por suspeita de feminicídio
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Finalizado um mês após o crime, o inquérito da Polícia Civil sobre a morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana aponta quatro principais contradições em relação à versão apresentada pelo tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso nessa quarta-feira (18/3), além de outras inconsistências entre seu depoimento e os elementos técnicos reunidos pela perícia. O Metrópoles teve acesso ao inquérito e detalha os principais pontos que colocam em dúvida o relato do oficial.

A soldado Gisele, de 32 anos, foi encontrada morta com um tiro na cabeça, no dia 18 de fevereiro, dentro do apartamento onde vivia com o marido, na região central de São Paulo. O inquérito embasou a prisão do coronel Geraldo Neto, que passou a ser tratado como principal suspeito do feminicídio.

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No mesmo dia em que ela morreu, caso passou a ser investigado como morte suspeita
Coronel afirma desde o dia da morte da esposa que ela teria se matado
Soldado foi ferida com a arma do marido
PM Gisele: novos depoimentos podem levar à expulsão de tenente-coronel
Soldado era casada com tenente-coronel, que estava no apartamento no momento do tiro

Veja os principais pontos destacados pela polícia

1 – Árvore de Natal contradiz versão do investigado:

O primeiro ponto envolve a posição de uma árvore de Natal no apartamento. O tenente-coronel afirmou que o objeto teria sido removido do local onde estava antes de ele entrar no banheiro, chegando a sugerir que Gisele teria deslocado.

No entanto, fotos feitas pelos primeiros socorristas mostram a árvore exatamente no mesmo lugar descrito inicialmente, ao lado do sofá. O laudo pericial conclui que o objeto só foi retirado depois, durante o atendimento, para abrir espaço.

Para os peritos, essa divergência não é apenas um detalhe. O tenente-coronel Geraldo afirmou que estava tomando banho no momento do disparo e que teria aberto a porta para ver o que havia acontecido. No entanto, a posição da árvore dificultaria a visão da cena a partir do banheiro, o que coloca em dúvida a versão apresentada por ele.

2 – Posição da arma levanta dúvidas:

Outro ponto central diz respeito à arma utilizada no disparo. Em momentos diferentes, o coronel apresentou versões distintas: primeiro, disse que Gisele segurava a arma; depois, afirmou que ela estava caída no chão.

As imagens e os relatos dos socorristas, no entanto, indicam que a pistola estava na mão da vítima quando a equipe chegou. A perícia destaca que, em casos de disparo na cabeça, é extremamente improvável que a pessoa mantenha a arma firmemente empunhada após o impacto, devido ao relaxamento muscular imediato. Para os investigadores, a mudança de versão sobre esse ponto é significativa, já que a posição da arma é um dos elementos mais importantes para diferenciar o suicídio de homicídio.

3 – Marcas de sangue indicam movimentação do corpo:

A análise das manchas de sangue é apontada como uma das evidências mais fortes do inquérito. Segundo o laudo, o padrão de escorrimento indica que o sangue fluiu enquanto a vítima ainda estava em posição vertical ou semivertical.

Essa informação é incompatível com a posição em que o corpo foi encontrado, já caído no chão. De acordo com os peritos, se as manchas se formaram enquanto Gisele ainda estava em pé ou quase na vertical, ela não poderia ter caído sozinha e produzido aquela trajetória de sangue no corpo.

Diante disso, a conclusão técnica é de que o corpo foi movido após o disparo e reposicionado no local por outra pessoa. O coronel, porém, afirmou que ninguém teria tocado em Gisele antes da chegada do socorro. A perícia aponta que há indícios de alteração da cena, o que reforça a suspeita de fraude processual.

4 – Vestígios de sangue no banheiro contradizem relato:

O quarto ponto envolve vestígios de sangue encontrados no banheiro utilizado pelo investigado. Exames identificaram marcas nos registros de água, nas paredes, no chão do box, além de na bermuda e em uma toalha.

Segundo a perícia, o tipo de mancha encontrado é decisivo. O laudo aponta que o sangue na roupa tem características de gotejamento, ou seja, caiu diretamente sobre o tecido, gota por gota, e não foi espalhado por contato ou limpeza. Isso significa que o investigado estava próximo à vítima no momento em que ela ainda sangrava. Para os especialistas, se o sangue tivesse sido transferido por toque ou atrito, as marcas seriam diferentes, com sinais de arrasto ou pressão, o que não foi identificado. A forma das manchas indica que ele estava parado ou muito próximo da vítima enquanto o sangramento ainda ocorria.

“Essa dinâmica exige a presença física do investigado no raio imediato do corpo da vítima durante o sangramento ativo, condição absolutamente incompatível com sua versão de que não manteve qualquer tipo de contato com a vítima. O gotejamento não mente: ele documenta”, diz o delegado Lucas de Souza Lopes, do 8º Distrito Policial, que presidiu o inquérito.

Essa dinâmica contradiz a versão apresentada pelo tenente-coronel, que afirmou estar no banheiro e não ter tido contato com a vítima. Além disso, a presença de sangue dentro do box reforça a suspeita de que ele entrou no local já com vestígios e teria tomado banho antes da chegada do socorro.


Morte de PM Gisele levou à prisão de tenente-coronel


O tenente-coronel Geraldo Neto foi preso nessa quarta-feira (18/3) sob a acusação de feminicídio e conduzido ao Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte da capital paulista. O habeas corpus solicitado pela defesa deve ser analisado ainda nesta quinta-feira (19/3), quando também será realizada a audiência de custódia – por videoconferência – e que poderá definir se ele permanecerá detido ou responderá ao processo em liberdade.

PM Gisele: veja as 4 contradições no depoimento à polícia do coronel

Sapateiro morto: peritos se negaram 3 vezes a analisar cena do crime

 Polícia Civil afirma que perícia era “imprescindível”, mas diz que equipe técnica recusou ir ao local; corregedoria será acionada

Governo de SP.
Viatura da Polícia Científica de São Paulo. Sem orçamento, perícia de SP não tem ferramentas para investigações. - Metrópoles
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A investigação sobre a morte do sapateiro Vinicius Oliveira França, de 23 anos, ganhou um novo capítulo que amplia as dúvidas em torno do caso. Como registrado pela Polícia Civilperito do Instituto de Criminalística (IC) teria se recusado, por três vezes, a realizar a análise no local onde o jovem foi baleado e caiu de moto, na zona sul de São Paulo.

A informação consta em adendo do boletim de ocorrência registrado no 98º DP (Jardim Miriam), ao qual o Metrópoles teve acesso. No documento, é destacado que a perícia era considerada essencial para esclarecer as circunstâncias da morte.

“Registra-se que foi requisitada a perícia por três vezes sendo informada a imprescindibilidade da perícia no veículo, no entanto, por três vezes o Instituto de Criminalística se negou a realizar a perícia, mesmo com a informação de que o local seria preservado por policiais civis”, diz o registro.
Sapateiro morto: peritos se negaram 3 vezes a analisar cena do crime - destaque galeria
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O sapateiro Vinicius Oliveira França, de 23 anos, foi morto com um tiro enquanto se dirigia à casa de uma cliente para buscar um calçado
Não se sabe em que momento ele levou o tiro
Momentos antes de atravessar a avenida, Vinicius ainda estava de capacete. Pouco depois, o capacete usado por ele já não aparece nas imagens
Mistério cerca morte a tiros de jovem sapateiro a caminho do trabalho

Ainda segundo o documento policial, investigadores chegaram a se disponibilizar para manter a área isolada até a chegada dos peritos, o que não ocorreu.

Diante da negativa reiterada, a própria Polícia Civil deixou registrado que iria levar o caso à Corregedoria da instituição. “Dessa forma, será oficiada a Corregedoria Geral da Polícia Civil para apurar a conduta do perito responsável que negou a requisição sem justificativa plausível”, diz trecho do documento.

Sem a análise técnica no local e no veículo, o inquérito perde um dos principais instrumentos para reconstituir a dinâmica dos fatos, especialmente em um caso marcado por lacunas e versões conflitantes.

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) foi questionada sobre o caso, e informou que “a perícia no veículo envolvido na ocorrência citada pela reportagem está sendo agendada pela Superintendência da Polícia Técnico-Científica (SPTC) para ser realizada dentro dos parâmetros técnicos exigidos. Como a motocicleta havia sido retirada do local do acidente, é necessária a adequação do procedimento para viabilizar a perícia de forma regular”.

“Paralelamente, a Corregedoria da Polícia Civil instaurou um procedimento para apurar todos os fatos relacionados aos protocolos adotados no caso, que segue em investigação pelo 98º Distrito Policial (Jardim Miriam), com diligências em andamento para esclarecer todas as circunstâncias da ocorrência”, finaliza a pasta.

Caso cercado de dúvidas

Como mostrou o MetrópolesVinicius foi baleado na noite de 14 de abril, enquanto pilotava sua moto após buscar um tênis de uma cliente, nas proximidades de casa. Mesmo ferido, ele seguiu conduzindo por alguns minutos, até cair ao lado de um ônibus.

Imagens de câmeras de monitoramento mostram o jovem com capacete em um primeiro momento, na Avenida Ângelo Cristianini. Minutos depois, já sem o equipamento, ele aparece em alta velocidade antes de cair, alguns metros adiante na mesma via (assista abaixo).

Vídeo do Youtube


Inicialmente tratado como acidente de trânsito, o caso mudou de rumo após uma médica constatar um ferimento por arma de fogo no braço da vítima. De acordo com registros do 98º DP, o projétil atravessou o corpo, saindo pela região da clavícula, que foi quebrada, assim como um dos ossos do braço.

Apesar disso, a declaração de óbito, obtida pela reportagem, aponta como causa da morte “politraumatismo”, sem mencionar o disparo. Em nota, a Secretaria de Saúde afirmou que a “declaração de óbito para mortes suspeitas ou violentas são preenchidas diretamente pelo Instituto Médico Legal (IML), e não o hospital”.

Falhas e desconfiança

A ausência de perícia no local se soma a outros pontos que têm alimentado a desconfiança da família, como a presença incomum de policiais militares no hospital e a falta de informações claras sobre a origem dos disparos.

mãe de Vinicius, Vanessa França, afirmou que estranhou a movimentação de PMs ainda na sala de emergência. “Quando eu cheguei no hospital, já tinha policial dentro. Eu não entendi. Por que tanta polícia?”.

Ela também questionou a condução do caso desde o início. “Ninguém explica nada. A gente não sabe quem atirou, por que atirou, nem em que momento isso aconteceu”.

Sem a perícia, considerada peça-chave para esclarecer a trajetória dos disparos, a posição da vítima e eventuais vestígios na via, o caso segue sem respostas concretas.

Busca por respostas

Descrito por familiares como trabalhador e sem histórico de conflitos, Vinicius havia acabado de completar 23 anos e mantinha uma rotina voltada ao trabalho na sapataria e a serviços autônomos.

Para a família, o conjunto de inconsistências, da ausência de perícia às divergências nos documentos oficiais, reforça a sensação de que a morte ainda está longe de ser esclarecida.

“Eu preciso saber o que aconteceu com meu filho. Não foi um acidente. Foi algo muito mais grave”, afirmou a mãe.

Enquanto isso, a investigação avança sem a análise técnica da cena do crime, um dos elementos mais básicos em casos de morte violenta.

Sapateiro morto: peritos se negaram 3 vezes a analisar cena do crime