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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Os policiais torturaram e mataram meu filho', diz mãe de dançarino


MARCELO GOMES - O ESTADO DE S. PAULO

23 Abril 2014 | 13h 49

A auxiliar de enfermagem Maria de Fátima Silva presta depoimento nesta quarta-feira; corpo do filho foi encontrado em creche do Morro Pavão-Pavãozinho

RIO - A auxiliar de enfermagem Maria de Fátima Silva, de 56 anos, mãe do dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira, de 26 anos, está prestando depoimento na tarde desta quarta-feira, 23, na 13ª Delegacia de Polícia (Ipanema), responsável pelas investigações. Antes de depor, ela disse ter certeza de que o filho foi torturado e morto por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Pavão-Pavãozinho.
"A UPP é um farsa, uma mentira. Meu filho não morreu de queda. Tenho certeza que (os policiais) torturaram e mataram ele. A morte dele não vai ficar por isso mesmo, vou processar o Estado."
Maria de Fátima disse ainda que, quando Douglas foi encontrado no pátio de uma creche no alto da favela, seu corpo e seus documentos estavam molhados. "Não choveu entre a noite de segunda e a madrugada de ontem (terça, quando o crime teria acontecido). Meu filho teve afundamento na cabeça, um corte no supercílio e está com o nariz machucado, com uma mancha roxa".
Ela disse que não quer que o corpo de Pereira seja maquiado pela funerária para ser velado. O enterro está previsto para as 15h desta quinta-feira, 24, no cemitério São João Batista, em Botafogo, zona sul do Rio. "Quero que ele seja enterrado sem maquiagem para que todos vejam o que fizeram com meu filho".
Laudo. A auxiliar de enfermagem mostrou o laudo preliminar que atestou que a causa da morte do dançarino foi "hemorragia interna decorrente de laceração pulmonar decorrente de ferimento transfixante do tórax devido ou como consequência de ação pérfuro-contundente". O laudo definitivo deverá sair em até 30 dias. "Se esse laudo não apontar exatamente o que aconteceu com meu filho, eu mando desenterrá-lo e fazer outro laudo."
Segundo Maria de Fátima, moradores do Pavão-Pavãozinho contaram terem visto policiais militares usando luvas cirúrgicas. Para ela, a cena do crime foi desfeita propositalmente para dificultar as investigações. "Lavaram a cena do crime. Eu fui militar e sei disso. Tem sangue na parede. Além disso, a ex-namorada dele, mãe de sua filha, disse que ele estava em posição de defesa quando foi encontrado. E para que os PMs estavam de luva cirúrgica? Desde quando PM é perito?"
A mãe de Douglas contou que seu filho tinha uma rixa com policiais da UPP desde 2011, quando estava de moto e foi parado em um blitz. "Quando foi parado, ele respondeu mal a um policial. Por isso, foi levado à sede da UPP, ficou sentado lá dentro e me ligaram. Depois que meu filho foi liberado, o tanque da moto dele estava cheio de areia e tivemos que arrastá-la. A moto foi um presente meu para ele".
Ela disse que sua última lembrança foi vê-lo vestido de coelhinho da Páscoa no programa 'Esquenta' da TV Globo veiculado no último domingo, 20. "Eu até brinquei com ele porque a fantasia era rosa. E ele disse que era uma homenagem para a filhinha dele. Meu filho era muito, muito alegre".

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Dançarino morto: armas de PMs serão recolhidas

23/04/2014 - 20:37

Rio de Janeiro

Secretário de Segurança do Rio defende programa das UPPs e afirma que ainda não há como saber de onde partiu disparo que matou DG, do 'Esquenta'

Após violenta madrugada de protestos pela morte de Douglas Rafael da Silva Pereira, amigos e vizinhos realizam uma prece em homenagem a vítima, no Rio de Janeiro
Após violenta madrugada de protestos pela morte de Douglas Rafael da Silva Pereira, amigos e vizinhos realizam uma prece em homenagem a vítima, no Rio de Janeiro (Felipe Dana/AP)
O secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, precisou vir a público mais uma vez para falar sobre problemas em uma favela incluída no programa de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). O caso do dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira, de 24 anos, o DG, encontrado morto em uma escola do morro Pavão-Pavãozinho na noite de terça-feira, criou uma onda de comoção nas redes sociais. DG era dançarino do programa ‘Esquenta’, da Rede Globo, e descrito como um jovem tranquilo por moradores da favela. A Polícia Militar admitiu que houve tiroteio envolvendo policiais na terça-feira, mas até o momento não enxerga oficialmente conexão entre a morte de DG e o tiroteio. Na noite de terça-feira houve protesto com ruas bloqueadas em Copacabana e em Ipanema. Durante os protestos, um homem morreu: Edilson Santos, que apresentava problemas psiquiátricos, tinha passagem pela polícia por furto.
O ponto de virada na história, e o que obrigou o secretário a se manifestar publicamente, foi a descoberta de que, diferentemente do que havia dito a PM e a equipe de peritos da Polícia Civil no local do encontro do corpo, o dançarino foi morto por um disparo de arma de fogo. Até então, PM e perícia afirmavam que o jovem havia sido encontrado com muitos ferimentos, supostamente de uma queda, e o corpo estava sem perfurações. Laudo do Instituto Médico Legal atestou como causa da morte a perfuração transfixiante no pulmão.


Beltrame admitiu a possibilidade de participação de policiais na morte de DG, mas limitou-se a dizer que o caso precisa ser apurado. Segundo afirmou, as armas dos dez policiais que participavam de uma patrulha no momento em que DG ainda não foram recolhidas – o que certamente é um prejuízo para a investigação, pois não há como ter certeza de que os equipamentos não passaram por adulteração desde o tiroteio. O secretário disse que os dez PMs estão identificados e a numeração das armas está listada, para recolhimento após os depoimentos dos envolvidos.
O episódio da morte de DG ocorre em um momento crucial para as UPPs. O projeto que deveria ser uma das ferramentas de propaganda do governo do Estado para a eleição de Luiz Fernando Pezão – atual governador – está, por enquanto, na condição de problema de imagem para o Estado. Depois de um período festivo, com a retomada do Complexo do Alemão e a ocupação de favelas pela Zona Sul, as UPPs entraram em crise com a morte do pedreiro Amarildo de Souza, na Rocinha, crime pelo qual há 25 policiais denunciados, e com uma série de confrontos em favelas da Zona Norte.
Beltrame voltou a defender as UPPs, e afirmou que há, em vários locais, a tentativa de bandidos de desmoralizar “o processo” da pacificação.  “Certos benefícios judiciais permitem a volta de certas pessoas, o que é discutível. Algo que isso precisa ser revisto”, disse, cobrando mudanças no sistema penal para evitar que criminosos sejam liberados provisoriamente e voltem a atuar em favelas.

http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/dancarino-morto-armas-de-pms-serao-recolhidas