Essa e a verdadeira cara da nossa Segurança Publica

Essa e a verdadeira cara da nossa Segurança Publica
Mostrando postagens com marcador Esquadrão da Morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Esquadrão da Morte. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Investigação revela grupo de extermínio formado por policiais militares do PR

 | Jonathan Campos/Gazeta do Povo
  • Felippe Aníbal e Diego Ribeiro


  • A investigação conduzida por uma força-tarefa da Polícia Civil levantou evidências da existência e atuação contínua de um grupo de extermínio formado por policiais militares em Londrina, no Norte do Paraná. Os indícios apontam que a ação do “esquadrão da morte” envolvia a execução indiscriminada – sem “alvos” pré-estabelecidos –, a adulteração dos locais em que os assassinatos ocorreram e a implantação de armas junto às vítimas, para simular confrontos. O grupo teria envolvimento direto em pelo menos 17 ataques ocorridos em janeiro deste ano, que somaram 17 mortes e 17 feridos.
    Estão presos quatro policiais militares e um publicitário – apontado como “guardador” de armas do grupo. As investigações começaram após a chamada “Noite do Terror”, em que 11 pessoas foram assassinadas e 17 baleadas, em retaliação à morte de soldado Cristiano Botino. A maior parte das vítimas estava nas ruas e algumas sequer tinham passagem pela polícia. A investigação – cujo sigilo foi quebrado nesta semana – vai apontar a relação entre os ataques e participação de policiais da 4ª Companhia da Polícia Militar (PM).

    Execução em Londrina

    Câmeras de segurança mostram instantes que antecederam a execução de um homem, na chamada "noite do terror", em Londrina, e que teria tido a participação de policiais militares.

    + VÍDEOS
    Entre as provas, está um vídeo gravado por câmeras de segurança na madrugada do dia 30 de janeiro, quando ocorreu a série de ataques. As imagens mostram o soldado Wilson Alex Bianchi desembarcando armado de um Palio e entrando em casa, na Zona Norte. O carro cruza com o rapaz, faz o retorno e se aproxima. O jovem era Wagner Honório, o “Madruga”, e foi executado por vários tiros em seguida, poucos metros além do alcance da câmera (veja o vídeo).
    Pouco depois, Bianchi sai de casa e aparenta fazer uma ligação pelo celular. Em minutos, um comboio de três carros chega ao local de crime e seus ocupantes descem. A investigação destaca que os veículos chegaram alinhados em perfil “operacional” – apenas o automóvel que vinha à frente trazia os faróis acesos. O modelo dos carros bate com a descrição de veículos usados em outros ataques da “noite do terror”. Para a força-tarefa, eles seriam integrantes do grupo de extermínio.

    Adulteração

    Dos 17 ataques investigados pela força-tarefa, há indícios de que pelo menos sete locais em que os crimes ocorreram foram adulterados. Em todos, foram recolhidos cápsulas de projéteis, dificultando ou impossibilitando a realização de perícias - o que configura crime de fraude processual . Segundo testemunhas, uma das cenas foi adulterada pessoalmente por um capitão da PM, que teria recolhido estojos de munições. Vizinhos, no entanto, conseguiram recolher e guardar duas cápsulas, cuja numeração da base permitiu identificar que a munição pertence a um lote adquirido pela PM.
    Além disso, um policial militar recolheu o aparelho que armazenava imagens das câmeras de segurança da casa onde ocorreu uma chacina em que quatro pessoas foram executadas e três foram baleadas. O equipamento jamais foi apresentado às autoridades. O agente foi reconhecido por sobreviventes da chacina como o soldado Jefferson José de Oliveira, que está preso. Outros policiais ainda teriam limpado o local, sumindo com cápsulas de projéteis.

    PM afirma não compactuar com abusos

    Por meio de nota, a Polícia Militar do Paraná afirmou não compactuar com abusos de seus integrantes. A instituição ressaltou que seus policiais têm “formação voltada ao policiamento comunitário e aos direitos humanos”. Por isso, a PM disse ainda que, tão logo receba “oficial e formalmente” os documentos sobre o caso, vai instaurar os processos administrativos para avaliar se os policiais permanecerão na corporação. O texto frisa ainda que será garantida a ampla defesa, o contraditório e o devido processo legal aos acusados.
    “A PM lembra ainda que os eventuais desvios de conduta não condizem com a realidade dos relevantes serviços prestados pela instituição, de modo que tais condutas não podem ser generalizadas, pois denigrem toda uma instituição e seus integrantes”, concluiu a assessoria de imprensa.

    Sem manifestação

    O advogado Cláudio Dalledone Júnior, representante dos cinco policiais presos, disse que não teve acesso integral ao inquérito e, por isso, preferiu não se manifestar sobre as investigações. “Eu repudio veementemente todo e qualquer vazamento de informações e provas relacionadas às investigações. Após ter acesso aos autos, me manifestarei à respeito”, disse.
    Nesta semana, a Associação dos Oficiais da Polícia Militar do Paraná (Assofepar) convocou uma coletiva em que também criticou a divulgação de informações das apurações.

    Executados não tinham antecedentes criminais

    Pelo menos oito pessoas executadas nos ataques investigados pela força-tarefa da Polícia Civil nem sequer tinham antecedentes criminais. Outras nove vítimas que foram baleadas, mas sobreviveram, também não tinham passagem pela polícia. Três homens assassinados já haviam respondido por crimes graves que envolvem emprego de violência, como roubo ou homicídio.
    “Meu filho nunca foi malandro. Eu ficava em cima. Nem tatuagem deixei ele fazer, porque sou de igreja e não gosto dessas coisas. Eu ficava no pé”, disse o pai de um dos jovens executados. “Ele tinha trabalhado o dia inteiro e foi numa festinha na rua de cima. Ele já estava voltando para casa quando aconteceu”, lamentou.
    Entre as vítimas sem passagem pela polícia estão os jovens Allan Bonifácio Martins e Rafael Vergínio Barros, de 19 anos, que foram executados quando voltavam para casa. Eles estavam em uma moto Honda CG 125, quando foram atingidos por uma série de disparos, na Zona Norte de Londrina, na chamada “noite do terror”.
    Apesar de vários disparos terem sido deflagrados, apenas um estojo e um projétil foram recolhidos. O soldado Jefferson Oliveira foi reconhecido por testemunhas como um dos primeiros a chegar ao local. Testemunhas apontaram que policiais militares empurraram projéteis e cápsulas para um bueiro. Uma vizinha recolheu um estojo e, no dia seguinte, ligou para a PM, mas teria sido orientada a “jogar no lixo” o material.

    Ataques investigados

    1 - Homicídio
    Data: 26/01 – 1h25
    Local: Rua Maria Sinopoli Francovig, 1153, Conjunto Semiramis, Londrina
    Vítima: Alifer Francisco Silva, 22 anos
    Resumo: Atingido por cinco tiros em frente da casa em que morava. Cena teria sido adulterada.
    2 - Homicídio
    Data: 26/01 – 2h00
    Rua Santo Tomioso, bairro Parigot de Souza, Londrina
    Vítima: João Carlos Felipe da Silva Sarge, o “Baiano”, 16 anos
    Resumo: Morava com o tio, era usuário de drogas e pequeno traficante. Não houve testemunhas.
    3 – Homicídio
    Data: 26/01 – 22h40
    Local: Rua Mario Gobo esquina com Rua Antônio Martins, Jardim Eucalipto, Londrina
    Vítimas: Claudemir da Silva Oliveira, 33 anos, e Emerson Gambarotto, de 36 anos (com antecedentes por roubo).
    Resumo: Uma moto teria passado atirando em frente ao bar em que estavam.
    4 – Homicídio
    Data: 26/01 – 23h10
    Local: Rua Francisco de Assis Fernandes Ruiz, 1316, Conjunto Luís de Sá, Londrina
    Vítima: Wesley Silva de Jesus, 24 anos (passagem por homicídio)
    Resumo: atiradores mataram-no dentro de casa, com vários tiros. Mulher e filhos escaparam
    5 – Homicídio
    Data: 27/01 – 00h10
    Local: Rua Nilton Leopoldo Câmara, esquina com a Rua Juvenal Egger Filho, Conjunto Farid Libos, Londrina
    Vítima: Raul Fagner da Silva, 17 anos
    Resumo: seria um pequeno traficante. Foi morto a tiros. Testemunhas apontam participação de dois carros.
    6 – Homicídio
    Data: 28/01 – 4h50
    Local: Rua Gino Tomiozo, Conjunto Novo Amparo, Londrina
    Vítima: Indiovan da Corte Tavares, 20 anos (passagem por roubo)
    Resumo: Executado por quatro homens, que chegaram em um Palio.
    7 – Chacina
    Data: 29 de janeiro – 22h
    Vítimas fatais: Guilherme Veiga, de 28 anos (sem passagem), Cleverson Ramos de Almeida, 28 anos (sem passagem), Mateus Modesto, 23 anos (sem passagem) e Walcy Gomes de Souza Júnior, de 30 anos (sem passagem).
    Baleados: Dois jovens de 21 anos (ambos sem passagem) e um homem com passagem por roubo e tráfico.
    Resumo: Homens armados quebraram os vidros do portão e dispararam indiscriminadamente contra todos que estavam dentro da casa, onde participavam de um jantar. Policiais que atenderam a ocorrência limparam a cena do crime, sumindo com cápsulas e projéteis e com o equipamento que armazenava imagens das câmeras de segurança.
    8 – Homicídio
    Data: 30 de janeiro – 2h50
    Vítima: Adriana Rodrigues, de 34 anos
    Baleados: três jovens sem antecedentes
    Resumo: carro de cor escura passou atirando nos frequentadores de um bar. Cena do crime foi adulterada, segundo testemunhas.
    9 – Tentativa de homicídio
    Data: 30/01 – 1h30
    Local: Rua Guilhermo Negro, próximo ao numeral 90, Jardim Califórnia, Londrina
    Vítima: Alejandro Adrian Alves, de 15 anos (sem antecedentes)

    Resumo: Ocupantes de um carro desceram atirando contra a vítima, que conseguiu se esconder. Em seguida, um capitão da PM teria isolado a área e recolhido cápsulas. Um estojo de projétil pego por testemunhas foi entregue à Polícia Civil. Munição pertence a lote comprado pela PM.
    10 – Duplo homicídio
    Data: 30/01 – 3h00
    Vítimas: Allan Bonifácio Martins, de 19 anos (sem antecedentes), e Rafael Vergínio Barros, de 19 anos (sem antecedentes)
    Local: Rua Orlando Silva, Bairro Vila Isabel, Londrina
    Resumo: voltavam para a casa de motocicleta, quando foram atingido por série de disparos. Local foi adulterado por policiais, que recolheram as cápsulas e projéteis.
    11 – Homicídio
    Data: 30/01 – 01h30
    Local: Avenida Pedro Boratin, 03, bairro dos Eucaliptos, Londrina
    Vítima: Moisés Zeferino Neto, de 21 anos (sem antecedentes)
    Baleado: um rapaz
    Resumo: Ocupantes de um carro chegaram à rua, perguntando se jovens tinham drogas e, sem seguida, abriram fogo.
    12 – Tentativa de homicídio
    Data: 30/01 – 2h20
    Local: Rua Anibal Balaroti, no bairro Vista Bela, Londrina
    Vítima: um homem de 35 anos (antecedentes por roubo)
    Resumo: Ocupantes de um carro atiraram de dentro do veículo, acertando o homem, que correu. Carro fez abordagens em uma pizzaria e em uma casa, a procura do baleado. Cápsulas apreendidas fazem parte de lote vencido pela polícia.
    13 – Homicídio
    Local: Rua Henrique Bruneli, 491, bairro Avelino Vieira, Londrina-PR
    Data: 30/01 – 2h40
    Vítima: Icaro Faria de Araújo, 18 anos (sem antecedentes)
    Baleado: rapaz de 22 anos
    Resumo: Vítimas seriam usuárias de drogas e foram surpreendidas por um carro, cujos ocupantes chegaram atirando. Cápsulas e projéteis foram retirados do local do crime.
    14 – Homicídio
    Data: 30/01 – 02h57
    Local: Rua Antonio Rodrigues Aranda, 217, Jardim Moema, Londrina
    Vítima: Wagner Honório, de 36 anos
    Resumo: Ocupantes de um carro que tinha acabado de deixar um policial em casa encontrou a vítima no caminho e a executou a tiros. Vídeo mostra a ação.
    15 – Tentativas de homicídio
    Data: 30/01 – 01h00
    Local: Rua Roberto Conceição, 159, Jardim São Lourenço, Londrina
    Baleados: dois adolescentes (sem passagens) e um homem (com passagem por roubo).
    Resumo: Vítimas estavam em um bar, quando uma motocicleta parou e seus ocupantes abriram foto. Jovens seriam “vapores”, que distribuíam pequenas quantidades de drogas.
    16 – Tentativa de homicídio
    Data: 30/01 – 2h50
    Local: Avenida Theodoro Victorelli, no bairro Interlagos, Londrina
    Baleados: homem de 28 anos (sem antecedentes) e homem de 24 (com passagem por roubo)
    Resumo: Estavam nas ruas, quando ocupantes de um carro que passou atiraram diversas vezes.
    17 – Tentativa de homicídio
    Data: 30/01 – 3h13
    Local: Rua Izabel Guilhen Garcia, bairro João Turquino, Londrina
    Baleados: Quatro homens, sem passagens
    Resumo: Estavam em um bar, quando atiradores passaram abrindo fogo. Indícios de que cápsulas e projéteis foram removidos do local.

    sábado, 10 de outubro de 2015

    Faça na caveira..


    Faca na caveira

    Quando o cenário político muda, outras facções criminosas surgem no Rio de Janeiro, como a Falange Vermelha. Esquadrões da morte passam a ser braço armado do tráfico de drogas

    Alexandre Leitão
    16/7/2014 :
    • Emblema do BOPE / Reprodução
      Emblema do BOPE / Reprodução
      O contexto que gerou as condições para o surgimento de um grupo de extermínio nos moldes do Esquadrão, formado por inspetores e delegados da Polícia Civil, começou a mudar no ano de 1969, quando o presidente Costa e Silva assinou o decreto 667, transferindo das extintas guardas civis para as Policiais Militares a função de patrulhamento ostensivo nas ruas do país. No mesmo ano, alguns nomes da Scuderie Le Cocq, como Mariel Mariscot, seriam chamados para integrar um novo grupo de elite da Polícia Civil, formado pelo Secretário de Segurança da Guanabara, Luís França: os 12 Homens de Ouro, que disporiam de carta branca para coibir os assaltos a taxistas, conduzidos pela quadrilha intitulada “Bandeira 2”. No livro Barra Pesada, questionado pelo jornalista Octávio Ribeiro a respeito de quantos criminosos teriam morrido a partir das ações dos Homens de Ouro, Sivuca respondeu: “Uns 12. Foram abatidos em tiroteios”.
      Ao longo dos anos seguintes, a Scuderie Le Cocq cresceria: algumas pessoas chegavam a colar adesivos com o símbolo do grupo nos para-brisas de seus carros como forma de afugentar ladrões. Em 1977, Sivuca declarou ao jornalista Octávio Ribeiro: “Existem cerca de 2500 sócios, entre eles policiais, jornalistas, médicos, advogados, militares e outros profissionais liberais. A Scuderie foi criada para perpetuar a memória de Le Cocq A vida do candidato é minuciosamente vasculhada. O associado tem que ser bom pagador. Não pode ser caloteiro”. Entre a primeira e a segunda metade da década, o Esquadrão passou a agir de forma decisiva na Baixada Fluminense, onde executou, apenas no município de Nova Iguaçu, 594 pessoas, entre 1970-76, de acordo com dados da antropóloga Márcia Regina da Costa.
      Novo mundo do crime
      Paralelamente, a desorganização e o abandono estrutural do sistema carcerário brasileiro, onde presos políticos e comuns eram colocados juntos sob condições desumanas em Ilha Grande, gerariam o contexto propício para a criação da Falange Vermelha. A organização criminosa foi fundada em finais da década de 1970 por nomes como William da Silva Lima (o “Professor”), José Carlos dos Reis Encina (o “Escadinha”) e Rogério Lemgruber (vulgo “Marechal” ou “Bagulhão”), cujas iniciais RL viriam a compor o nome completo da Falange, após esta ser rebatizada de Comando Vermelho (CVRL). Todos eles fugiriam do presídio em 1980, passando a ampliar o grupo não só dentro como também fora da cadeia, tomando pontos de vendas de droga em diversos morros do Rio de Janeiro.

      Especial - Esquadrão da Morte:
       A ocupação de comunidades cariocas por grupos de narcotraficantes armados traria uma nova dinâmica ao mundo do crime, e causaria o reaparelhamento das instituições jurídicas e repressivas do Estado. A incursão sobre morros e favelas passaria então a ser conduzida por grupamentos militarizados, como a Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) da Polícia Civil, criado em 1969, e pelo Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar, criado em 1978 – coincidentemente, ambas possuem a caveira como símbolo em seus escudos. Indubitavelmente, em um processo paralelo, grupos de extermínio continuariam a agir no subúrbio carioca e na Baixada Fluminense (além de estados como Acre, Amazonas, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio Grande do Norte e São Paulo).
       Paulatinamente reprimidos pelo próprio regime militar, que percebia a crise institucional que grupos como os Esquadrões da Morte estaduais poderiam produzir, alguns de seus integrantes receberam penas de prisão. Em São Paulo, no ano de 1970, o promotor Hélio Pereira Bicudo levantou inquéritos, nos quais foram denunciados inspetores da Polícia Civil como Sérgio Paranhos Fleury. Estes eram acusados de integrar o Esquadrão da Morte e beneficiar traficantes paulistas com suas execuções – os traficantes considerados “amigos” permaneceriam vivos, restando aos demais a execução sumária. Através desse sistema, o E.M. paulista tornava-se, efetivamente, braço armado de traficantes interessados em se livrar de concorrentes.
       No Rio, o detetive Mariel Mariscot de Matos seria encarcerado, tal qual Lúcio Flávio Vilar, no presídio de Ilha Grande (de onde viria a fugir), sendo mesmo expulso da Scuderie Le Cocq nos anos 70. Transitando entre a cadeia e a liberdade, Mariscot foi morto, em 1981, no Centro do Rio de Janeiro. Nas décadas seguintes, as ações do Esquadrão iriam reduzir-se, praticamente desaparecendo da crônica carioca. A única que sobreviveu foi a Scuderie Le Cocq, que, até a década passada, mantinha um prédio próximo à favela Paula Ramos, no bairro do Rio Comprido, no Rio de Janeiro. Em entrevista concedida à Folha de São Paulo, em 2006, seu então presidente Antônio Augusto de Abreu, afirmava que a Scuderie resumia suas ações a projetos sociais na região, além de dar pequenas contribuições a orfanatos e asilos. No mesmo artigo, o ex-deputado estadual Sivuca que afirmava que a ocupação da favela por traficantes teria desmotivado a entidade a lutar contra o crime.
      Emblema da Scuderie Le Cocq / Reprodução
      Emblema da Scuderie Le Cocq / Reprodução
      Impunidade aos justiceiros
        Para se compreender como o salto qualitativo no uso da violência consolidou-se enquanto parâmetro operacional, junto às forças policiais civis e militares brasileiras, é necessário não apenas reconhecer o impacto do Esquadrão da Morte, mas a ligação deste com o próprio Estado, em meio à Ditadura Militar. Por mais que esta, a partir de certo momento, tenha cerceado as ações do E.M., muitos de seus integrantes contaram com total impunidade por seus atos criminosos. A título de exemplo, dos 35 indiciados por envolvimento com o Esquadrão da Morte em São Paulo, na década de 1970, apenas 6 foram condenados. O delegado Sérgio Fleury morreria em liberdade, em 1979. Os delegados do SDE, Eurípides Malta, Itagiba José de Oliveira, João de Deus Dorneles e Salvador Correia de Oliveira, acusados do assassinato do motorista da TV Tupi no Morro São João, seriam absolvidos e reintegrados à força policial carioca na década de 1960 (Eurípides Malta viria mesmo a se tornar dono de um bar, na Barra da Tijuca, após se aposentar da polícia).
       Os delegados Luís Mariano e Sivuca, ambos integrantes da ação que redundou na morte de Cara de Cavalo, em 1964, seguiriam suas carreiras na Polícia Civil: Mariano, além de presidente da Scuderie Le Cocq, viria a tornar-se titular da Delegacia de Vila Isabel na década de 1990, e Sivuca ocuparia o cargo de professor da Academia de Polícia por duas décadas, elegendo-se ainda deputado estadual. O general Amaury Kruel, criador do Serviço de Diligências Especiais e acusado de corrupção, deixaria a posição de assessor militar do Brasil na ONU para assumir o Gabinete Militar da Presidência da República, nomeado por João Goulart, em 1961, e o Ministério da Guerra, em 1962, no contexto do regime parlamentarista (1961-63). Em 1963, assumiu o comando do II Exército, estacionado no estado de São Paulo (sua decisão de apoiar o golpe civil-militar de 31 de março de 1964, recusando-se a defender o governo constitucional de Goulart, pode ser encarada como o fator decisivo que propiciou a vitória dos golpistas).
      Ainda segundo a antropóloga Márcia Regina da Costa, no artigo “O Esquadrão da Morte em São Paulo”, escrito para o livro Sociedade, Cultura e Política: Ensaios Críticos, apenas em 1968, o Esquadrão da Morte carioca executaria 250 pessoas, enquanto seu equivalente paulista eliminaria 200 vítimas entre 1969 e 1971. Há, entretanto, que se reconhecer a presença de uma sólida base social para a ação dos Esquadrões. Vale lembrar que a criação da SDE se deu após um pedido da Associação Comercial do Rio de Janeiro para que ações mais enérgicas fossem tomadas na repressão a roubos e assaltos. Parte da imprensa, quando não adotou uma estratégia sensacionalista na cobertura do grupo, foi completamente solidária às suas ações, como pode ser exemplificado pela definição que o jornalista David Nasser deu, no programa “Diário de um Repórter”, aos integrantes do Esquadrão da Morte carioca, chamando-os de “os empreiteiros de Deus”. No livro Cobras criadas, biografia do jornalista escrita por Luiz Maklouf Carvalho, é relatado que, quando Nasser faleceu, em 1980, foi estendida sobre seu caixão a bandeira da Scuderie Le Cocq.
       Em 1970, uma pesquisa encomendada pela revista Veja à agência Marplan, conduzida nos estados de São Paulo e da Guanabara (atual cidade do Rio de Janeiro), e que entrevistou 210 pessoas, apontava que 60% dos entrevistados em São Paulo, e 33% na Guanabara, eram favoráveis ao Esquadrão da Morte. Ecos, talvez, de um profundo discurso autoritário, que encara na violência um dos únicos veículos de mediação das tensões sociais (em um país marcadamente desigual), pode-se identificar nos Esquadrões da Morte apenas uma das manifestações desta herança histórica, que atualmente realiza-se sob formas diferentes, envolvendo policiais e cidadãos sem vinculação direta ao aparato repressivo do Estado.