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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Delegado pede desculpas por conduta ao deter mulher que teria descumprido medida protetiva em MT

 Segundo Bruno França, a ação aconteceu depois que a mulher ameaçou, mais uma vez, o enteado dele, de 13 anos – de quem não poderia se aproximar. A defesa dela afirma não ter sido notificada da decisão da Justiça e que o filho dela foi agredido e sofreu bullying por parte do adolescente.

Por g1 MT

Delegado Bruno França pede desculpas por conduta  — Foto: Reprodução

Delegado Bruno França pede desculpas por conduta — Foto: Reprodução


O delegado Bruno França, que invadiu casa de uma mulher em um condomínio de luxo de Cuiabá, porque, segundo ele, ela descumpriu uma medida protetiva contra o enteado dele, de 13 anos, pediu desculpas pela condução na prisão e afirmou que pediu afastamento da Polícia Civil por 30 dias. Ele publicou uma nota de esclarecimento nesta quinta-feira (1º).

    A ação, realizada sem mandado judicial permitindo a entrada dele na casa da mulher, ocorreu na noite de segunda-feira (28) e foi registrada pelas câmeras de segurança do imóvel. As imagens mostram França bastante agressivo. Ele diz, ao menos duas vezes, que vai explodir a cabeça da mulher e, segundo a família, chegou a apontar a arma para uma criança de 4 anos. Ele está acompanhado de policiais da Gerência de Operações Especiais (GOE), armados com fuzis.

    A Corregedoria da Polícia Civil investiga a conduta do delegado e se houve descumprimento da decisão judicial por parte da mulher. A defesa dela alega que não foi notificada até o momento do documento, que determina que ela permaneça a 1.000 metros de distância do adolescente e que não frequente escolas em que ele esteja matriculado.

    Na nota de esclarecimento, França relata que, na segunda-feira, enteado o procurou pedindo socorro, porque a mulher foi até a quadra poliesportiva do condomínio, onde ela mora e ele estava como visitante, e iniciou os ataques contra ele.

    O delegado afirma que bateu na porta da casa, mas não teve resposta. Por isso, decidiu arrombá-la, mas que em "nenhum momento apontei arma de fogo para nenhuma das pessoas na casa". Ele reconhece o excesso na "verbalização" e diz que errou.

    "Peço ainda desculpas pelo susto causado à criança inocente que se encontrava dentro da residência. Não sabíamos da presença antes da entrada e, desde o ocorrido, a ideia do medo que causei a essa menina é, de longe, aquilo que mais tem me machucado. A Polícia Civil existe para proteger as pessoas e não para assustá-las, motivo pelo qual espero que um dia essa criança possa me perdoar", disse.
    Delegado armado invade casa de mulher à noite em Cuiabá — Foto: Câmeras de segurança/Cedida

    Delegado armado invade casa de mulher à noite em Cuiabá — Foto: Câmeras de segurança/Cedida

    França também cita a participação dos demais policiais na ação. "Gostaria de deixar claro que a decisão de realizar a prisão é de responsabilidade minha, tendo os colegas da GOE inclusive tentado me acalmar nos momentos de maior emoção. Não possuem qualquer responsabilidade", diz a nota.

    O delegado solicitou à Corregedoria da Polícia Civil o afastamento por 30 dias ou até o final das apurações. Porém, o órgão informou que, até a última atualização desta reportagem, não havia recebido a solicitação.

    "Quanto à decisão de enfrentar a agressora e realizar sua captura, tal conduta não possui qualquer ilicitude e não goza de arrependimento de minha parte", finaliza França.

    Nesta quinta-feira (1°), o governador Mauro Mendes (União) disse em entrevista que concorda com a condução do caso pela Polícia Civil.

    "A Secretaria de Segurança Pública e a Polícia Civil já falaram sobre isso e eu concordo com o posicionamento deles. Realmente, à altura do que aconteceu, acho que eles devem, provavelmente, afastar o delegado e fazer uma apuração dentro daquilo que estabelece a legislação”, disse.

    Entenda o caso

    Na noite de segunda-feira (28), o delegado arrombou a porta da casa e deteve a mulher que, segundo ele, descumpriu uma medida protetiva contra o enteado dele, de 13 anos. A ação foi registrada pela câmara de segurança de um dos cômodos, que flagrou a agressividade do homem, armado, e acompanhado por outros policiais. A filha da mulher, de 4 anos, chora durante toda a ação e, por diversas vezes, os policiais dão sinais para que França e também os moradores se acalmem.

    A medida protetiva foi expedida pela juíza Gleide Bispo Santos, da 1ª Vara Especializada da Infância e Juventude de Cuiabá, no dia 24 de outubro, após investigação conduzida pela Delegacia Especializada de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente. Além de manter distância do garoto, ela está impedida de frequentar a casa de familiares do adolescente e a escola que ele estiver matriculado, sob pena de sofrer as sanções previstas em lei.

    Porém, o advogado da mulher, Rodrigo Pouso Miranda, afirma que nem ele nem a cliente tinham conhecimento da medida protetiva e desconheciam, até então, o teor dela.

    Vídeo mostra delegado de MT invadindo casa e dizendo que vai 'estourar cabeça' de moradora

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    A mulher, em entrevista à TV Centro América, disse que viveu cenas de terror.

    “Minha filha tem 4 anos e ele gritava demais ‘vou estourar a sua cabeça’. Meu marido pedia calma e minha filha pedia ‘por favor, para tio, não faz isso’ e ele falava ‘manda essa menina calar a boca’ e apontou a arma para ela. Ele foi agressivo”, contou a mulher, que não quer ser identificada.

    A vítima disse que, no momento da ação policial, fazia a menina dormir e assistia à televisão, enquanto o marido fazia uma sessão de massagem.

    “Ninguém entendeu aquele absurdo. Foi uma cena de terror, ameaça o tempo inteiro. Nada justifica essa agressividade”, relatou a mulher, que passou por uma cirurgia recente na mão e está com drenos.

    A família morava em outro condomínio, onde o filho de 11 anos passou a ser agredido e a sofrer bullying por crianças do bairro – entre elas, conforme Pouso, o enteado do delegado. Por isso, decidiram se mudar.

    “Fiquei em desespero e meu marido deu a ideia de mudar de casa, porque a gente não aguentava mais. As famílias foram notificadas e ninguém veio falar com a gente. Meu marido conversou com alguns pais sobre a situação e alguns entenderam. Antes de acontecer isso, eu vi vários episódios de xingamentos, de empurrões. A vítima é meu filho e, agora, minha filha de 4 anos. Ela está sem dormir”, disse a mãe.

    Investigação

    Corregedoria da Polícia Civil disse que vai investigar o delegado Bruno França — Foto: TV Centro América

    Corregedoria da Polícia Civil disse que vai investigar o delegado Bruno França — Foto: TV Centro América

    Bruno França trabalha no município de Sorriso, a 420 km de Cuiabá, e está em estado probatório. Ele foi aprovado no último concurso da Polícia Civil e ingressou na instituição em janeiro deste ano.

    A Corregedoria da Polícia Civil afirmou, nesta quarta-feira (30), que está investigando a conduta de França. O delegado-corregedor da Polícia Civil, Marcelino Felisbino, disse ainda que a polícia está apurando como foi realizado o acionamento da equipe operacional de elite.

    “Já temos pessoas intimadas para apurar como foi e a justificativa para ter essa operação policial. A primeira coisa é buscar se houve alguma ação imprópria e, tendo indício, vai ser instalado um procedimento formal e, posteriormente, a responsabilização dos atos", disse.

    Felisbino contou que a polícia também vai investigar se houve descumprimento da medida protetiva por parte da mulher. A punição para o delegado, caso haja a comprovação de ação imprópria, pode ser de advertência ou até suspensão.

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