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domingo, 4 de abril de 2021

Defesa de réus de chacina tenta desacreditar mães de vítimas, diz defensora...

Zilda Maria de Paula (à esq.), líder das mães de Osasco e Barueri, conversa com Josiane Amaral, filha da vítima Joseval Silva - Marcelo Oliveira/UOL

Zilda Maria de Paula (à esq.), líder das mães de Osasco e Barueri, conversa com Josiane Amaral, filha da vítima Joseval SilvaImagem: Marcelo Oliveira/UOL

Marcelo Oliveira

Do UOL, em São Paulo

25/02/2021 14h56Atualizada em 26/02/2021 10h26


A defesa do ex-policial militar Victor Cristilder e do guarda civil municipal de Barueri Sergio Manhanhã juntou ao processo um vídeo e 122 páginas de prints de postagens publicadas em uma rede social pela líder das mães das vítimas da chacina de Osasco e Barueri, a aposentada Zilda Maria de Paula, 67.

Para a defensora pública Maíra Coraci, que atua como assistente de acusação e defende os interesses das mães das vítimas no processo, a defesa dos réus tenta desqualificar o testemunho de Zilda no novo júri da chacina, ocorrida em agosto de 2015, que está em andamento nesta semana no Fórum de Osasco.

"Os advogados estão tentando desacreditar a dona Zilda por ela ter apoio das Mães de Maio, organização que ele tenta desqualificar ao usar no processo um vídeo antigo em que uma promotora acusa sem provas o movimento de ligação com o tráfico de drogas", disse a defensora ao UOL.

O Mães de Maio é um movimento que reúne as mães das mais de 500 vítimas dos "crimes de maio" assassinatos praticados pelo PCC contra agentes de Estado e por agentes de Estado contra civis como revide às mortes de policiais e bombeiros após atentados da facção criminosa em maio de 2006.

Aposentada criou movimento pela memória e justiça para vítimas da chacina

Dona Zilda, como é conhecida a aposentada, é mãe de Fernando de Paula, morto aos 34 anos, no bar do Juvenal, em Osasco, local que concentrou a maior quantidade de vítimas fatais da chacina.

Fernando era seu único filho, e Zilda reuniu as mães de vítimas do bairro Munhoz Júnior, e através de mobilização social e apoio de outras entidades, como a Geledés e o movimento Mães de Maio, ela busca por justiça e pela memória das vítimas da chacina com outras mães, viúvas e filhos dos 17 mortos e 7 sobreviventes da chacina de Osasco e Barueri.

As 122 páginas de prints de postagens de Zilda no Facebook e o vídeo integram 20 mil páginas de documentos que foram juntadas pela defesa dos réus desde que Cristilder foi absolvido em outro júri, em Carapicuíba. Os posts mostram Zilda com jornalistas, pedindo o apoio de autoridades participando de atos. Numa foto (abaixo), ela está com a bandeira das Mães de Maio.

O advogado João Carlos Campanini, que defende Cristilder e Manhanhã, confirmou ao UOL que inseriu as postagens no processo, mas disse que só comentará por que adotou essa estratégia após os debates entre acusação e defesa.

Postagem de Zilda Maria de Paula, líder das mães de Osasco e Barueri, utilizada pela defesa de Cristilder e Manhanhã no julgamento - Reprodução - Reprodução
Postagem de Zilda Maria de Paula, líder das mães de Osasco e Barueri, utilizada pela defesa de Cristilder e Manhanhã no julgamento
Imagem: Reprodução

Para a defensora, o advogado dos réus constrangeu Zilda em plenário e tentou desestabilizá-la ao usar os posts do Facebook quando ela deu seu depoimento aos jurados.

"Só de ter entrado no Facebook dela e tê-la constrangido na frente dos jurados foi muito triste, de fazer pouco de tudo que ela passou, menosprezando a luta dela e deixei isso claro pros jurados durante o depoimento da dona Zilda", afirmou a defensora.

Zilda disse que, independentemente do resultado do júri, ela vai manter a luta das mães das vítimas da chacina.

"Eu fui espremida [pelo advogado] lá dentro, mas faz parte. Nós lutamos com nossas armas e eles com as deles", afirmou ao UOL após prestar seu depoimento na terça-feira (24).

Ela contou que chorou no depoimento, mas por ter revivido a chacina. "A gente revive tudo, foi como se estivesse vendo de novo o corpo do meu filho ali no bar", disse. "Somos apenas um pequeno grupo de mães e testemunhas. Nossa expectativa é por justiça, por todo esse sangue derramado", afirmou

No quarto dia do julgamento em Osasco réus são interrogados e começam debates

O terceiro júri da chacina de Osasco é resultado de um recurso de Cristilder e Manhanhã contra suas condenações pelo crime, nos júris anteriores, em 2018 e 2017, respectivamente. O Tribunal de Justiça de São Paulo entendeu que, em parte, os jurados decidiram de forma contrária aos autos, anulou a condenação de ambos e provocou a realização do novo júri, que começou na última segunda.

Em 2018, Cristilder recebeu uma pena de 119 anos. Em 2017, Manhanhã foi condenado a 110 anos de prisão.

O ex-policial Victor Cristilder, sentado, de muletas, aguarda para ser interrogado no Fórum de Osasco - Divulgação/Tribunal de Justiça de São Paulo - Divulgação/Tribunal de Justiça de São Paulo
O ex-policial Victor Cristilder, sentado, de muletas, aguarda para ser interrogado no Fórum de Osasco. Ao centro, sentado, o promotor Marcelo Alexandre de Oliveira; de pé, seus defensores
Imagem: Divulgação/Tribunal de Justiça de São Paulo

O quarto e mais longo dia do julgamento durou 12h40. Começou com o interrogatório do ex-PM Cristilder, expulso da corporação em 2019. Em seguida foi ouvido Manhanhã. O ex-PM foi interrogado por quase três horas, das 10h30 às 13h25. Às 14h15 começou o interrogatório de Manhanhã, que terminou às 16h55.

Após os interrogatórios, o júri entrou na fase de debates, que começou às 17h30 e terminou às 23h10.

A réplica e a tréplica dos debates ficaram para o quinto dia de julgamento. Ao final dos debates, o conselho de sentença (jurados) se reunirá para votar os quesitos e apresentar o veredito à juíza, que divulga o resultado e calcula a pena, em caso de condenação. A previsão é que o veredito seja conhecido somente amanhã (26).

A entrada da imprensa no julgamento foi vetada pela juíza Élia Kinosita, que preside o júri, sob a alegação da pandemia de covid-19.

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Comentário

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Claudio Jose Freire Guimaraes

Que titulo idiota. É lógico que a defesa dos réus vai desacreditar as mães das vítimas. Achavam o quê? Que a defesa ia pedir a condenação dos réus???

quarta-feira, 10 de março de 2021

Entidades protestam contra atos da defesa de policiais no júri de chacina...

O guarda civil Sérgio Manhanhã e o ex-PM Victor Cristilder durante julgamento em Osasco; eles foram absolvidos em segundo julgamento - Aloiso Mauricio/FotoArena/Estadão Conteúdo

O guarda civil Sérgio Manhanhã e o ex-PM Victor Cristilder durante julgamento em Osasco; eles foram absolvidos em segundo julgamentoImagem: Aloiso Mauricio/FotoArena/Estadão Conteúdo

Marcelo Oliveira

Do UOL, em São Paulo

09/03/2021 19h47


Mais de 200 entidades brasileiras e estrangeiras e centenas de cidadãos defensores dos direitos humanos e contrários à violência policial assinaram um manifesto em apoio aos movimentos sociais 13 de Agosto - Mães de Osasco e Barueri e Mães de Maio. No documento, eles protestam contra a estratégia da defesa do ex-policial militar Victor Cristilder da Silva dos Santos e do guarda municipal de Barueri Sergio Manhanhã, absolvidos após cinco dias de um novo júri sobre a chacina de Osasco e Barueri, realizado no fim de fevereiro.

A chacina, ocorrida em agosto de 2015 em Osasco e Barueri, na Grande São Paulo, foi a maior já registrada no Estado de São Paulo, com 17 vítimas fatais e 7 feridos.

A nota pública "Pela afirmação da vida, pela liberdade e contra a brutalidade policial" já foi traduzida para o espanhol, o inglês e o francês.

Postagem de Zilda Maria de Paula, líder das mães de Osasco e Barueri, utilizada pela defesa de Cristilder e Manhanhã para tentar constrangê-la no julgamento - Reprodução - Reprodução
Postagem de Zilda Maria de Paula, líder das mães de Osasco e Barueri, utilizada pela defesa de Cristilder e Manhanhã para tentar constrangê-la no julgamento; a impressão à direita da imagem é a autenticação que comprova a anexação do material ao sistema da Justiça
Imagem: Reprodução

Os signatários dizem que a defesa, liderada pelo advogado João Carlos Campanini, tentou criminalizar em plenário os movimentos sociais que reúnem mães de vítimas da violência policial. "A estratégia de defesa dos policiais construiu um discurso de inversão, tratando as mães dos jovens assassinados como criminalizáveis", afirma a nota.

Em plenário, conforme o UOL revelou na cobertura do julgamento, a defesa dos policiais tentou desacreditar as mães das vítimas utilizando um arquivo com 122 páginas de prints da página da aposentada Zilda Maria de Paula, 67, mãe de um dos mortos na chacina e liderança do grupo 13 de Agosto, e um vídeo antigo que a nota classifica como calunioso ao Movimento Mães de Maio. No vídeo, uma ex-promotora afirma existir relação entre grupos de Direitos Humanos e o PCC. Ela já foi processada pelas Mães de Maio.

TJ determinou novo julgamento

O novo julgamento da chacina de Osasco e Barueri aconteceu entre 22 e 26 de fevereiro e foi determinado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, que em 2020 anulou as sentenças de Cristilder e Manhanhã com a tese de que os jurados teriam julgado o PM e o guarda contrariamente aos autos em júris anteriores.

Em 2017, Manhanhã havia sido condenado a 110 anos de prisão pela participação em 11 mortes e duas tentativas de assassinato. Em 2018, Victor Cristilder foi sentenciado a cumprir 119 anos de prisão por 12 mortes e quatro tentativas de homicídio. Outros dois acusados pela chacina, os ex-PMs Fabrício Eleutério e Thiago Henklain seguem presos. Em 2017 eles foram condenados a 255 e 247 anos de prisão, respectivamente.

Júri de portas fechadas

O novo julgamento aconteceu a portas fechadas por ordem da juíza Élia Kinosita, em virtude da pandemia de covid-19. A imprensa só foi autorizada a entrar no Fórum Criminal de Osasco por 5 minutos para fazer fotos no último dia do julgamento.

Os familiares das vítimas da chacina estudam levar o caso para organismos internacionais de direitos humanos, como a Corte Interamericana de Direitos Humanos, que, em 2017, condenou o Brasil a investigar, processar e punir os responsáveis pelas chacinas de Nova Brasília, no Rio de Janeiro.

Ao final do julgamento, o promotor Marcelo Alexandre de Oliveira, responsável pelo caso, disse não caber recurso contra a decisão do júri de fevereiro.

Advogado alega que mãe da vítima criticou investigação

Questionado em 26 de fevereiro sobre o uso de postagens de dona Zilda durante o julgamento, Campanini alegou que sua intenção foi mostrar que ela questionou o julgamento do caso, que numa postagem ela teria chamado de "palhaçada".

"Dona Zilda é uma guerreira e luta pela Justiça e eu conversei com a dona Zilda pelo Facebook, mas a Justiça não é para condenar inocentes. Não vamos trazer o filho dela de volta condenando inocentes", disse o advogado.

De acordo com Campanini, pesou mais na avaliação dos jurados a absolvição de Cristilder em outro júri realizado em Carapicuíba, em novembro de 2020, no qual foi utilizada uma prova pericial que teria mostrado, segundo o advogado, que uma perícia havia sido interpretada de forma errada pela Polícia Civil.

Entidades protestam contra atos da defesa de policiais no júri de chacina - 09/03/2021 - UOL Notícias