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sexta-feira, 24 de março de 2017

Morre Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi

Ditadura

Morre Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi

por Deutsche Welle — publicado 15/10/2015 15h03
Coronel reformado chefiou o órgão de repressão do Exército de São Paulo e era acusado de comandar torturas de militantes contrários à ditadura
O coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, de 83 anos, morreu na madrugada desta quinta-feira 15 em Brasília. Ele lutava contra um câncer. A morte foi confirmada pelo Hospital Santa Helena, onde Ustra estava internado para uma quimioterapia.
Ustra foi comandante do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) de São Paulo, de setembro de 1970 a janeiro de 1974, no auge da repressão do regime militar à oposição. Ele era acusado de comandar torturas de militantes contra a ditadura militar.
Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade em maio de 2013, ele negou uma acusação do Ministério Público Federal de ocultação de cadáver. "Agi com a consciência tranquila. Nunca ocultei cadáver. Sempre agi dentro da lei", disse. O coronel também negou que tivesse cometido assassinato, tortura e sequestro e afirmou ainda que nenhuma tortura foi cometida dentro das instalações do DOI-Codi.
Segundo ele, se não fosse a atuação dos militares, o comunismo existiria hoje no Brasil. "Estávamos lutando pela democracia e estávamos lutando contra o comunismo. Se não fosse a nossa luta, se não tivéssemos lutado, eu não estaria aqui porque eu já teria ido para o paredón. Os senhores teriam um regime comunista, um regime como o de Fidel Castro. O Brasil teria virado um 'Cubão'."
No mesmo depoimento, Ustra também se referiu à atuação da presidente Dilma Rousseff durante a ditadura militar. "Ela integrou quatro grupos terroristas" que tinham como objetivo final "a implantação de uma ditadura do proletariado, o comunismo. Derrubar os militares e implantar o comunismo", afirmou.
Em outubro de 2008, Ustra foi considerado torturador pela Justiça do Estado de São Paulo. Na condenação, o juiz Gustavo Santini Teodoro disse que o coronel não tinha como ignorar que o DOI-Codi era uma "casa de horrores". "[Ele] não tinha como ignorar os atos ilícitos absolutos que ali se praticavam", ressaltou o magistrado. "Não é crível que os presos ouvissem os gritos dos torturados, mas não o réu", completou.
Em junho, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu ao Supremo Tribunal Federal a retomada do julgamento de uma ação penal contra o coronel. A ação tramita na Justiça Federal de São Paulo e foi suspensa, em abril, pela ministra Rosa Weber, até que a corte volte a julgar a validade da Lei da Anistia.
No recurso, Janot afirmou que a Lei da Anista não alcança os crimes cometidos por Ustra, tendo em vista o caráter permanente do crime de sequestro. Segundo Janot, enquanto os agentes não apontarem onde está o militante Edgar de Aquino Duarte ou seu corpo não for encontrado, "a conduta de sequestro está presente".
Ustra era natural de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.


Deutsche Wellehttps://www.cartacapital.com.br/sociedade/morre-brilhante-ustra-ex-chefe-do-doi-codi-8921.html

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Justiça nega pedido de extinção

Atualizado: 03/10/2013 20:31 | Por Agência Brasil, Agência Brasil

Justiça nega pedido de extinção de processo e de absolvição de Ustra.........


Elaine Patricia Cruz
Repórter da Agência Brasil

São Paulo - A Justiça Federal em São Paulo negou o pedido de extinção do 
processo e de absolvição sumária do coronel reformado Carlos Alberto 
Brilhante Ustra, acusado pelo sequestro qualificado de Edgar de Aquino Duarte
, militante político que desapareceu na época da ditadura militar. Além de ter 
afastado as alegações da defesa, o juiz Hélio Egydio de Matos Nogueira, titular 
da 9ª Vara Federal Criminal em São Paulo, determinou o prosseguimento da 
ação penal, marcando audiência para ouvir as oito testemunhas de acusação.
 Também serão julgados no caso os delegados de polícia Carlos Alberto 
Augusto e Alcides Singilo.
'Será a primeira audiência em que realmente serão ouvidas as testemunhas 
desses fatos perante a Justiça brasileira', disse o procurador da República
 Andrey Borges de Mendonça, integrante do grupo de Trabalho Justiça de 
Transição do Ministério Público Federal e um dos autores da denúncia. 
O grupo foi criado com o objetivo de promover a investigação e persecução
 penal das violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura 
militar.
O procurador ressaltou, em entrevista na tarde de hoje (3) à Agência Brasil, 
que as audiências no caso de Duarte 'são um marco' para o país. 'Esta é a 
primeira vez que haverá audiência em ações criminais relacionadas ao Ustra.
 Ele já foi condenado em âmbito cível, mas, em âmbito penal, será a primeira
 audiência em que vítimas e testemunhas vão tratar da prática desse crime 
perante a Justiça e vão narrar esses fatos no âmbito criminal', explicou.
'Não estamos pedimos uma indenização por danos morais ou valores 
financeiros a serem pagos para a família [como ocorreu em outros processos 
julgados em âmbito cível sobre o próprio Ustra], mas uma punição pela 
prática de um crime que, neste caso, é o sequestro qualificado. Nosso pedido é 
para que eles [réus] sejam punidos pela prática de um crime, diferente 
daqueles [processos] em que se pede uma indenização. Aqui não, aqui se pede 
uma sanção penal', disse o procurador.
As testemunhas de acusação arroladas pelo Ministério Público Federal serão 
ouvidas entre os dias 9, 10 e 11 de dezembro. Ainda não foi definida a data 
para que as testemunhas de defesa e os réus sejam ouvidas. As audiências 
serão públicas, mas sujeitas à lotação da sala. 'Os réus podem apresentar suas 
versões, mas não são obrigados [a isso]', destacou Andrey Borges.
Ustra era comandante do Destacamento de Operações de Informações - 
Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo, no período 
de 1970 a 1974. Os advogados de defesa tentaram anular a denúncia do 
Ministério Público alegando inépcia, inexistência de provas, prescrição do 
crime, obediência hierárquica e ocorrência de anistia, mas a Justiça Federal 
rejeitou essas alegações.
Duarte nasceu em Pernambuco, em 1941, e foi fuzileiro naval. Em 1964, logo 
após o golpe militar, foi expulso das Forças Armadas, acusado de fazer 
oposição ao regime após participação na revolta dos marinheiros. Exilou-se 
no México e em Cuba e voltou ao país em 1968, passando a viver em São Paulo 
com o nome falso de Ivan Marques Lemos. Ele trabalhava como corretor da 
Bolsa de Valores quando foi preso pelos militares em junho de 1971, 
e desapareceu. Segundo o Ministério Público, Duarte ficou preso ilegalmente 
nas dependências do DOI-Codi e, depois, no Departamento de Ordem Política 
e Social de São Paulo (Deops-SP), até meados de 1973.
Quando foi preso, ele havia deixado de ser militante. Mas era amigo de um 
colega da Marinha, José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, que tinha a
cabado de retornar de Cuba e com quem passou a dividir um apartamento no 
centro de São Paulo. A suspeita do Ministério Público é que Duarte tenha sido 
sequestrado porque conhecia a verdadeira identidade de Cabo Anselmo, que 
passara a atuar como informante dos órgãos de repressão.
Durante as investigações, os procuradores encontraram documentos do 
2º Exército que atestavam que Edgar de Aquino Duarte foi preso, que não 
pertencia a nenhuma organização política e que atuava como corretor de 
valores. 'Nesse caso foi possível identificar as pessoas, ou pelo menos parte 
delas, que foram responsáveis pelo sequestro do Edgar de Aquino Duarte', 
disse o procurador.
A tese usada pelo Ministério Público Federal é de que Duarte foi sequestrado e 
ainda se encontra desaparecido, crime que, portanto, não estaria prescrito e 
não se encontra sob a Lei de Anistia. A ideia é que, enquanto não se souber o 
paradeiro da vítima e o corpo não for encontrado, o crime de sequestro 
perdura. A Lei de Anistia não se aplicaria ao caso porque os crimes 
continuaram a ser cometidos após a lei ter sido editada, em 1979. 'Não há como
 falar em prescrição porque até hoje não se sabe onde está o corpo de Duarte. 
Enquanto não se encontrar os restos mortais [de Duarte] não se pode falar que
 a conduta cessou', disse Mendonça.
Á Agência Brasil, o advogado Paulo Alves Esteves, que defende Ustra, disse que 
seu cliente deverá comparecer à Justiça, caso seja notificado, 'como sempre o 
fez'. 'Ele sempre compareceu e sempre respondeu [às perguntas]', disse o 
advogado.
Para Esteves, a designação de audiências para ouvir as testemunhas de defesa 
e de acusação não configuram um marco, como o procurador ressaltou. 'Isso 
[a denúncia] é a repetição de matérias, de casos anteriores, idênticos, que já 
tiveram tramitação. Já tiveram denúncias idênticas que foram acolhidas e, no 
final, o Ustra foi absolvido', disse o advogado.
Esteves declarou ter arrolado oito testemunhas de defesa para serem ouvidas 
no caso. 'As testemunhas que vou apresentar são as mesmas ouvidas 
anteriormente', declarou.
Edição: Aécio Amado
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sábado, 11 de maio de 2013

Audiência da Comissão da Verdade


É marcada por bate-boca entre vítima e torturadorEx-servidor revela que o DOI-Codi exibia cadáveres e Ustra, antigo chefe da repressão, nega a prática. Militar discute com vítima de tortura e chama Dilma de "terrorista"

Publicação: 11/05/2013 06:00 Atualização: 11/05/2013 07:25
Ustra disse que combateu mais de 40 organizações de esquerda, entre elas quatro em que Dilma teria atuado (wilson dias/abr)
Ustra disse que combateu mais de 40 organizações de esquerda, entre elas quatro em que Dilma teria atuado
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) viveu ontem o momento mais tenso desde sua criação, em maio do ano passado. Uma audiência para tomada de depoimentos reuniu no mesmo auditório, em Brasília, o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra – considerado um dos mais poderosos agentes da repressão – e um ex-preso que alega ter sido torturado por ele, o vereador de São Paulo Gilberto Natalini. Enquanto Ustra se declarou “combatente de terroristas”, Natalini o chamou de “comandante do inferno”. A sessão acabou em bate-boca. Antes dos dois depôs Marival Chaves, ex-servidor do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) de São Paulo, que acusou Ustra de exibir corpos de militantes de esquerda como troféus da ditadura.

Chaves, que trabalhou na área de análise de documentos do DOI-Codi, disse que viu os corpos dos militantes Antônio Carlos Bicalho Lana e Sônia Maria Moraes Angel Jone serem exibidos “ainda jorrando sangue”. “As pessoas eram expostas à visitação pública no órgão como um troféu”, disse. E completou: “Um capitão era senhor da vida e da morte. Ele circulava pela área de interrogatório, especialmente quando havia presos importantes sendo interrogados. Eu o vi por lá, por exemplo, na antessala aguardando o momento de serem chamados o Vladimir Herzog e o Paulo Markun”.

Embora tenha negado assassinatos no DOI-Codi durante sua chefia, entre setembro de 1970 e janeiro de 1974, Ustra leu declaração, em tom de defesa, em que pregou a prestação de esclarecimentos à comissão pelo Exército, e não por comandantes. Para justificar a transferência de responsabilidade, ele destacou que nunca foi cobrado pelas Forças Armadas por sua atuação e que recebeu a mais alta condecoração do Exército. Ustra chegou acompanhado de advogado, com óculos escuros e bengala. Depois de ler o texto, disse que, amparado pela Justiça, se manteria calado. Mas acabou respondendo perguntas.

O coronel da reserva disse ainda que, na ditadura militar, o Brasil foi surpreendido pelo fortalecimento de organizações terroristas. Como exemplo, citou que a presidente Dilma Rousseff integrou quatro grupos. “Eles atacavam quartéis, roubavam armas, explodiam dezenas de bombas”, afirmou, acrescentando que, quando foi chamado para a chefia do DOI-Codi, mais de 300 bancos já haviam sido assaltados por “terroristas”. Ele frisou que, “com muito orgulho”, cumpriu sua missão ao combater mais de 40 organizações de esquerda. Foi questionado também sobre casos específicos de militantes de esquerda e, repetidas vezes, reiterou que tudo o que tinha para contar está em seu livro A verdade sufocada, publicado em 2006. 

Embate 

Antes de Ustra, o vereador de São Paulo e presidente da Comissão da Verdade da capital paulista, Gilberto Natalini, falou sobre os 60 dias que passou preso no DOI-Codi, em 1972. “Aquilo era um inferno e o Ustra era o comandante do inferno”, descreveu. Segundo Natalini, o coronel descobriu que ele escrevia poesias de protesto e queria que o militante as lesse para a corporação. “Mandou me despir, me colocou em pé numa poça d’água e passou aqueles fios de choque pelo meu corpo. Queria que eu declamasse para agentes. Durante horas, com uma espécie de vara de marmelo, me batia.”

Questionado sobre o episódio pelo presidente da comissão, Cláudio Fonteles, Ustra disse que é mentira. Fonteles propôs uma acareação. “Não faço acareação com terrorista”, respondeu o coronel. Natalini se exaltou: “O senhor, sim, é terrorista”. Dois senhores que estavam na plateia acusaram Natalini de atos de terror. Um deles não quis se identificar. O outro é o general reformado Luiz Rocha Paiva.

Para Fonteles, ao não responder todas as perguntas, Ustra cria uma “presunção de culpa”. O presidente da comissão disse que a responsabilidade pelas ações na ditadura não podem ser atribuídas ao Exército, mas sim aos seus comandantes. O colegiado enviará informações ao Ministério Público para um eventual recurso contra a decisão da Justiça que garantiu o silêncio a Ustra, que pode ser convocado novamente.

O fotógrafo de Vlado

A Comissão da Verdade de São Paulo (CVSP) vai ouvir, em 28 de maio, o fotógrafo Silvaldo Leung Vieira, autor da foto do corpo do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI-Codi, em 1975. Segundo Gilberto Natalini, presidente da CVSP, ele confirmará que a imagem foi armada. Este ano, os familiares do jornalista receberam um novo atestado de óbito, que diz que “lesões e maus-tratos sofridos durante o interrogatório nas dependências do Segundo Exército DOI-Codi” provocaram sua morte.