Essa e a verdadeira cara da nossa Segurança Publica

Essa e a verdadeira cara da nossa Segurança Publica
Mostrando postagens com marcador Clubes Militares. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Clubes Militares. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Militares reagem à punição de Dilma e clima piora

03 de março de 2012 | 10h 57

TÂNIA MONTEIRO - Agência Estado

A decisão da presidente Dilma Rousseff de punir militares da reserva que criticaram ministras do governo por serem favoráveis à revogação da Lei da Anistia piorou o clima na caserna e aumentou o número de adesões ao manifesto Alerta à Nação - eles que venham, por aqui não passarão. Dilma tomou a decisão de puni-los depois que os militares a criticaram publicamente por não censurar as ministras Maria do Rosário (Direitos Humanos) e Eleonora Menicucci (Secretaria de Políticas para as Mulheres).

Inicialmente, o manifesto tinha 98 assinaturas. Na manhã da quinta-feira, após terem tomando conhecimento da decisão de puni-los, o número subiu para 235 e no início da tarde de hoje chegou a 386 adesões, entre eles 42 oficiais-generais, sendo dois deles ex-ministros do Superior Tribunal Militar.
A presidente já havia se irritado com o manifesto dos Clubes Militares, lançado às vésperas do carnaval, e depois retirado do site, e ficou mais irritada ainda com esse novo documento, no qual eles reiteram as críticas e ainda dizem não reconhecer a autoridade do ministro da Defesa, Celso Amorim, de intervir no Clube Militar.
A presença de ex-ministros do STM adiciona um ingrediente político à lista, não só pelo posto que ocuparam, mas também porque, como ex-integrantes da Corte Militar, eles têm pleno conhecimento de como seus pares julgam neste caso.
O Ministério da Defesa e os comandos militares ainda estão discutindo com que base legal os militares podem ser punidos. Várias reuniões foram convocadas nos últimos dias para discutir o assunto. Mas há divergências de como aplicar as punições.
Pontos de vista
A Defesa entende que houve "ofensa à autoridade da cadeia de comando", incluindo aí a presidente Dilma e o ministro. Para Amorim, os militares não estão emitindo opiniões na nota, mas sim atacando e criticando seus superiores hierárquicos, em um claro desrespeito ao Estatuto do Militar.
Só que, nos comandos, há diferentes pontos de vista sobre a Lei 7.524, de 17 de julho de 1986, assinada pelo ex-presidente José Sarney, que diz que os militares da reserva podem se manifestar politicamente e não estão sujeitos a reprimendas.
No artigo 1.º da lei está escrito que "respeitados os limites estabelecidos na lei civil, é facultado ao militar inativo, independentemente das disposições constantes dos Regulamentos Disciplinares das Forças Armadas, opinar livremente sobre assunto político, e externar pensamento e conceito ideológico, filosófico ou relativo à matéria pertinente ao interesse público".
Essa zona cinzenta entre as leis, de acordo com militares, poderá levar os comandantes a serem processados por danos morais e abuso de autoridade, quando aplicarem a punição de repreensão, determinada por Dilma. Nos comandos, há a preocupação, ainda, com o fato de que a lista de adeptos do manifesto só cresce, o que faria com que esse tema virasse uma bola da neve.



domingo, 23 de março de 2014

A história será a prisão perpétua

A história será a prisão perpétua dos criminosos da ditadura

Em 31 de março de 1964 teve início um dos períodos mais infames da história da humanidade. Eu tinha cinco anos. Meu pai abandonara a minha mãe havia pouco tempo e por isso eu e ela fomos viver com seus pais. Como o meu avô estivesse definhando devido a um câncer nos pulmões a família optou por uma prática comum à época, em São Paulo: residir em hotel.
Vivíamos no elegante hotel Danúbio, na avenida Brigadeiro Luiz Antonio, com suas termas que atraíam a nata da elite paulistana. Lembro-me de mãe e avó acendendo velas e rezando naquela tarde que ficou cravada em minha memória. Lembro-me de que estavam assustadas. Lembro-me do som dos tiros do lado de fora e de como a tensão delas me aterrorizou.
Lembro-me de como a minha família, que repudiava o golpe, só falava do assunto em privado. E de como, mesmo estando dentro de casa, só conversava aos sussurros. Pequeno como era, durante ainda alguns anos acreditei que “os generais” – como mamãe chamava a ditadura – poderiam ver o que eu fazia até quando estivesse no banheiro.
Alguns poucos anos depois, a minha família foi expulsa de um restaurante porque,  por minha mãe ter me negado uma sobremesa ou um refrigerante – não me lembro bem –, como bom moleque pirracento comecei a repetir, uma vez após outra – e em alto e bom som –, a palavra proibida: “comunista”.
Oito anos depois, em 1972, ainda residindo no mesmo hotel e agora adolescente, fizera amizade com Daniel,  que residia na rua Major Diogo.  Tinha quatro anos a mais do que eu e se tornara companheiro de pedaladas pela cidade. Nossas bicicletas se encontraram uma vez e não se separaram mais…
Até que fossem separadas.
Daniel era negro. Vivia em um cortiço com a família. Quando nossas bicicletas se encontravam ali na rua Martiniano de Carvalho e saíamos pedalando pela cidade, ele sempre me falava de um movimento em que se engajara para “lutar contra a repressão”, a qual, apesar de então estar diminuindo, ainda era intensa.
Uma vez, fui com Daniel ao colégio Equipe participar de um encontro de conspiradores contra a ditadura. Ouvi falarem em tortura, em mortes. Fiquei apavorado. Era um adolescente. Tinha 13 anos. Tive muito medo. Contei para a minha família, que ficou furiosa com o convite que recebi e me proibiu de ver meu amigo.
Por algum tempo, obedeci. Depois acabei me revoltando com a proibição. Fui procurá-lo, mas sua família havia se mudado e o próprio Daniel nunca mais fora visto. O dono da adega na rua Humaitá, onde Daniel sempre tomava “um goró” antes de sairmos pedalando, disse-me, aos sussurros, que “os homens” o tinham levado…
Era, então, 1973. Agora, tinha 14 anos. Não entendia, ainda, o por que de tudo aquilo. Como era hábito da família ler o Estadão, que assinávamos, comecei a buscar nas páginas do jornal alguma informação mais inteligível sobre por que acontecia tudo aquilo no país. Todavia, nada encontrava. O fato é que o Brasil que aparecia no jornal era um país de mentira.
Nunca mais parei de ler jornal. Percebi, tão jovem, que é preciso estar informado, ainda que mal informado, porque da informação distorcida pode partir a busca da verdade. E  nunca parei de me sentir culpado por ter me omitido, mesmo sendo um mero adolescente à época em que tantos deram as suas vidas pela democracia.
Chegou 1989, ano da verdadeira redemocratização, com a primeira eleição direta para presidente desde o início dos anos 1960. Haviam se passado quase 30 anos desde que este país pudera votar. Finalmente havíamos nos libertado do jugo daqueles vermes que colocaram o país de joelhos.
Vi os mesmos jornais e televisões que jogaram o país na ditadura agora tentando manipulá-lo por outros meios. Quando Collor surgiu e aqueles veículos começaram a bombardear Lula, logo percebi que estavam ajudando a dar outro golpe no país.
Todavia, estava empenhado em sustentar mulher e três filhos. Com dificuldade, porque aqueles foram anos terríveis para o Brasil. Assisti à farsa montada pela Globo e companhia e que redundou na eleição de alguém cuja palavra picareta eu podia ler na testa, quando ele aparecia na tevê.
Durante a campanha eleitoral de 1989, comecei a discutir política no trabalho. Entretanto, logo recebi recado da gerência da empresa de que esta não aceitava “agitação política” e que não tolerava empregados “petistas”. Vejam só. Como precisasse do emprego, calei-me de novo.
Mas, desta feita, foi por pouco tempo. Logo percebi que precisava ser livre e ousei dar um passo: pedi demissão e fui trabalhar por conta própria. Uma coisa levou a outra. Ganhei até mais dinheiro do que quando era empregado e acabei fundando o meu próprio negócio, com mais dois sócios, em 1991.
Livre, comecei a escrever ao jornal que me introduziu nas grandes questões de interesse público. E o que me surpreendeu foi que começou a publicar algumas de minhas cartas de leitor. Mas percebi, também, que o Estadão só me publicava quando não batia muito de frente com as suas idéias reacionárias de ex-mural de recados da ditadura.
Quando a internet chegou ao Brasil, em meados da década de 1990, e o Estadão começou a publicar os endereços de e-mail dos leitores, tive a ideia de ir formando uma lista com esses endereços, aos quais escrevia textos contrariando a linha editorial do jornal ultraconservador. Minha lista de emails chegou a ter mais de mil pessoas.
Em 2005, tive a idéia de criar este blog. Dois anos depois, com leitores desta página fundei o Movimento dos Sem Mídia. Mais dois anos e o jornal Folha de São Paulo esbofeteia o país publicando um editorial que afirmou que a ditadura militar brasileira não teria sido uma ditadura, mas uma ditabranda.
Chegara a hora de fazer o que não fizera na juventude. Agora quarentão, resgataria aquele menino de treze anos assustado com o regime dos generais.
Através do blog, convoquei o primeiro ato de protesto do pós-redemocratização das vítimas da ditadura contra um dos jornais que ajudaram a jogar o país nela. Em 7 de março daquele ano, através de convocação deste blog, pelo menos meio milhar de cidadãos se reuniu diante do jornal Folha de São Paulo para protestar contra aquele editorial indigno.
#Ditabranda - Eduardo Guimarães Eduardo Guimarães lê o manifesto em frente à Folha. Ato contra a ditabranda da Folha de SP #Ditabranda - Matéria da TV Brasil Cobertura da TV Brasil sobre o ato contra a "ditabranda" da Folha de SP. 07/03/09 O ato foi tão forte, tão significativo, com presença maciça de movimentos sociais, da UNE, da CUT, do Fórum de Presos Políticos, do Tortura Nunca Mais etc., que, no dia seguinte, a Folha reconheceu, em nota, o equívoco de seu editorial. —– Folha de São Paulo 8 de março de 2009 Manifestação contra Folha reúne 300 pessoas em frente ao jornal Militantes fazem desagravo a professores, que não comparecem a evento DA REPORTAGEM LOCAL Cerca de 300 pessoas participaram ontem pela manhã de manifestação contra a Folha em frente à sede do jornal, na região central de São Paulo. O ato público tinha o duplo objetivo de protestar contra editorial publicado pelo jornal no dia 17 de fevereiro, que usou a expressão “ditabranda” para caracterizar o regime militar brasileiro (1964-1985), e prestar solidariedade aos professores Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato. Nenhum dos dois estava presente. A Folha publicou no “Painel do Leitor” 21 cartas sobre o assunto, 18 delas críticas aos termos do editorial, entre as quais as assinadas por Benevides e Comparato. Segundo escreveu este último, o autor do editorial e o diretor de Redação que o aprovou “deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro”. Em resposta, o jornal classificou a indignação dos professores de “cínica e mentirosa”, argumentando que, sendo figuras públicas, não manifestavam o mesmo repúdio a ditaduras de esquerda, como a cubana. Desde então, além de cartas, o jornal vem publicando artigos a respeito da polêmica, alguns dos quais com críticas ou reparos à própria Folha. O protesto de ontem foi organizado pelo Movimento dos Sem-Mídia, idealizado pelo blogueiro Eduardo Guimarães. O público era composto na sua maioria por familiares de vítimas da ditadura, estudantes e sindicalistas ligados à CUT. * Folha avalia que errou, mas reitera críticas DA REDAÇÃO O diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho, divulgou ontem as seguintes declarações: “O uso da expressão “ditabranda” em editorial de 17 de fevereiro passado foi um erro. O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis. Do ponto de vista histórico, porém, é um fato que a ditadura militar brasileira, com toda a sua truculência, foi menos repressiva que as congêneres argentina, uruguaia e chilena -ou que a ditadura cubana, de esquerda. A nota publicada juntamente com as mensagens dos professores Comparato e Benevides na edição de 20 de fevereiro reagiu com rispidez a uma imprecação ríspida: que os responsáveis pelo editorial fossem forçados, “de joelhos”, a uma autocrítica em praça pública. Para se arvorar em tutores do comportamento democrático alheio, falta a esses democratas de fachada mostrar que repudiam, com o mesmo furor inquisitorial, os métodos das ditaduras de esquerda com as quais simpatizam.” Otavio Frias Filho —– Quando assisti ao vídeo dos jovens que, em São Paulo e no Rio de Janeiro, durante esta semana foram apupar os velhacos torturadores que foram comemorar os próprios crimes nos clubes militares, senti que ao ter criado este blog, o Movimento dos Sem Mídia e ao ter convocado o ato contra a Ditabranda, de alguma forma me redimi de minha omissão pretérita. No Rio, militares comemoram golpe de 64, e manifestantes protestam Será aplicada à ditadura e aos seus integrantes vivos e mortos uma pena da qual jamais conseguirão se evadir. Com o empenho tardio de pessoas como eu, com a Comissão da Verdade e, acima de tudo, com a disposição desses jovens valentes que o vídeo acima mostra, a história será a prisão na qual os criminosos da ditadura cumprirão pena para sempre.