Perícia da Polícia Civil de São Paulo contradiz declaração de integrante da Polícia Militar sobre morte da soldado Gisele Santana
Por , 24 mar 2026, 08h00 • Atualizado em 24 mar 2026, 08h07
Morta com um tiro: perícia descartou possibilidade de suicídio (Reprodução/Reprodução)
Um minucioso trabalho da perícia da Polícia Civil de São Paulo apontou um detalhe importante na investigação sobre a morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, ocorrida em 18 de fevereiro. Uma árvore de enfeite natalina impediria que o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto observasse, à distância, o corpo da mulher estendido na sala do apartamento do casal, como ele havia relatado preliminarmente.
A reconstituição do fato foi realizada por meio de um levantamento em 3D de todo o apartamento, com uso de scanner, com medidas e posições precisas de móveis, portas, janelas e outros objetos e com base em depoimentos prestados pelo policial. “A sequência de eventos narrada por Neto corrobora, em partes, com o que foi narrado pelos socorristas, a partir da chegada destes ao 27º andar. No entanto, cabem as seguintes considerações a respeito das divergências de narrativas: A árvore de Natal que, outrora estivera sobre o chão da sala, ao lado do sofá, encontrava-se nesta mesma posição quando da chegada dos socorristas, visto que as fotos feitas pelo SGT Rodrigues mostram nitidamente a presença do objeto, conforme a versão da equipe. Tal árvore só fora removida por CB Forti no intuito de liberar espaço para a consecução das manobras de socorro. Desta forma, não cabe a versão de Neto que, em sua narrativa, aponta que a árvore estaria sobre sua cama quando este abriu a porta do banheiro”, diz trecho do relatório policial.

No dia do registro da ocorrência da morte de Gisele, o tenente-coronel Neto afirmou que por volta das 7h do dia 18 de fevereiro entrou no banheiro do apartamento para tomar banho. “Um minuto após, ouviu um barulho que inicialmente supôs ser o de uma porta sendo batida. Ao abrir a porta do banheiro, deparou-se com Gisele caída ao solo na sala do apartamento, com intenso sangramento na região da cabeça e com a arma de fogo em mãos”, diz trecho da ocorrência.bre processo de expulsão de tenente-coronel acusado de feminicídio

Segundo ainda consta no relatório pericial, não há possibilidade de Gisele ter tirado a própria vida. Segundo o documento, a soldado da Polícia Militar fora abordada pelas costas e levado um tiro de cima para baixo na altura da cabeça. O marido de Gisele está preso e fora denunciado pelo crime. Ele, caso condenado, pegará entre 20 e 40 anos, pelo crime de feminicídio (art. 121-A, do Código Penal).
Relembre o caso
Gisele morreu dentro do apartamento onde vivia com o tenente-coronel no Brás, bairro da zona leste de São Paulo. Ele acionou a polícia no dia da morte dela e falou que se tratava de um suicídio — versão que foi contestada pela família, que exigiu que as investigações tomassem outro rumo. Mensagens encontradas pela polícia no celular do tenente-coronel mostravam que eles viviam uma dinâmica abusiva de relacionamento, na qual ele se via como um “macho alfa” e exigia que a esposa tivesse comportamento “submisso” a ele. Gisele disse a ele e à família que queria se separar, e que não trocaria “sexo por moradia”, em referência às exigências do marido.
Ela morreu por conta de um tiro na cabeça. Além da dinâmica envolvendo a perspectiva da qual Neto poderia ter visto o corpo de dentro do banheiro, o corpo da cabo foi encontrado pelos socorristas segurando a arma de fogo, movimento que não é plausível em casos de suicídio. O tenente-coronel foi preso preventivamente na semana passada e a denúncia ofertada pelo MP foi aceita, colocando-o no banco dos réus.
A árvore que chamou atenção da perícia no caso do tenente-coronel acusado de matar a mulher | VEJA

Nenhum comentário:
Postar um comentário