Tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto e a esposa, a soldado Gisele Alves Santana, ambos da Polícia Militar de São Paulo
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O quarto dia de audiências do processo sobre a morte da soldado Gisele Alves Santana, 32, baleada na cabeça em fevereiro, teve início por volta das 10h e ouve testemunhas arroladas pela defesa do tenente-coronel da PM e viúvo da vítima, Geraldo Leite Rosa Neto, 53. Rosa Neto é réu por feminicídio e fraude processual e está preso desde 18 de março no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte da capital. Ele nega ter cometido o crime e afirma que a companheira se suicidou.
O que aconteceu
Previsão é que 14 testemunhas, a maioria policiais militares, sejam ouvidas ao longo do dia no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste. Apenas um dos depoentes é uma testemunha de acusação —uma perita criminal. O depoimento da agente, que ocorreria ontem, foi transferido para hoje na modalidade virtual por falta de tempo. Do total, sete deverão ser ouvidos no formato virtual. A primeira pessoa a ser ouvida hoje foi a perita criminal que atendeu a ocorrência.
A segunda pessoa foi o coronel e comandante da PM para quem Rosa Neto ligou após o disparo. Na época do crime, o coronel estava lotado e era comandante do CPA/M-5 (Comando de Policiamento de Área Metropolitano-5), responsável pelo policiamento na região oeste da capital paulista, e onde o tenente-coronel trabalhava. O coronel ouvido era superior do réu.
A energia do fórum caiu, necessitando o acionamento de gerador. Porém, o tribunal afirmou à reportagem que o episódio não afetou a audiência, sendo necessário apenas os computadores reiniciarem para o retorno dos trabalhos.
O terceiro ouvido, na forma virtual, foi um médico endocrinologista. Em interrogatório, em 18 de março (dia em que foi preso), o réu afirmou que o profissional da saúde era seu amigo e atendia ele e Gisele.
A quarta a depor foi uma advogada. Também em interrogatório no mês de março, Rosa Neto afirmou que a defensora foi a responsável por agendar datas no cartório para a assinatura do divórcio dele e da vítima nos meses de setembro, outubro e novembro de 2025.
Como o UOL mostrou, Rosa Neto fez 19 ligações em 16 minutos após o disparo que atingiu Gisele. A análise do aparelho do acusado indicou que a primeira ligação do tenente-coronel foi ao 190 (Polícia Militar), às 7h54min58s de 18 de fevereiro, porém, ele não aguardou o atendimento, que constou como não atendido no celular. Depois, às 7h55min25s, o oficial ligou para o coronel, que era seu comandante, mas a ligação foi rejeitada. Segundos depois, ele ligou novamente, porém, não foi atendido. As ligações foram feitas pelo tenente-coronel tanto através da opção "telefone" do celular, como através do aplicativo WhatsApp.
Às 7h55min53s, Rosa Neto telefona de novo para o superior hierárquico, mas a ligação é perdida e teve a duração de 0 segundos. O coronel atende a ligação apenas às 7h56min03s, com duração de 58 segundos. O agora réu e seu superior voltam a se falar às 8h02min07s por mais um minuto e 40 segundos. Cinco minutos depois, ambos voltam a conversar em uma ligação de 13 segundos. Depois, às 8h11min37s, o coronel e o comandante se falam por ligação por mais seis minutos e dez segundos.
Em relatório, a Polícia Civil apontou que as ligações revelaram a sequência comportamental do acusado imediatamente após o disparo que atingiu Gisele. Para a polícia, a postura foi "altamente incompatível com o estado de desorganização psíquica esperado de um cônjuge que teria acabado de presenciar o suicídio da esposa". Entre os destinatários das ligações também estava o desembargador e amigo de Rosa Neto, Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), que esteve no apartamento após o telefonema. Em coletiva, a Polícia Civil afastou interferências de Cogan no caso. Cogan não está entre as testemunhas que vão depor esta semana no fórum.
Audiências
Na segunda-feira (29), no primeiro dia de audiência, duas testemunhas foram ouvidas de forma remota devido ao jogo do Brasil na Copa do Mundo. Uma delas foi o delegado responsável pela investigação do caso, Lucas de Souza Lopes, do 8º Distrito Policial (Brás), e, a outra, uma vizinha do casal que acionou a Polícia Militar após ouvir o disparo.
Na terça-feira (30), o segundo dia de audiências terminou com uma testemunha protegida e outros nove depoentes ouvidos pela Justiça em cerca de cinco horas e meia. Policiais militares, inclusive amigas da vítima, e bombeiros que atenderam à ocorrência prestaram depoimento, bem como uma sargento da Corregedoria da PM. A 11ª testemunha prevista para depor não compareceu por motivos pessoais. Não há informação se ela deve depor outro dia.
Ontem, nove testemunhas previstas foram ouvidas. Entre elas, os pais de Gisele (Marinalva e José Simonal de Santana), o irmão da policial, Pedro, a filha dela (em depoimento especial), o ex-companheiro e pai da menina, e policiais militares. O UOL apurou que, entre 21 testemunhas de acusação que prestaram depoimento até a quarta, apenas uma delas fez declarações "na frente" do tenente-coronel.
As oitivas estão previstas para ocorrer até amanhã (3/7), de forma presencial, no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste da capital paulista. Ao todo, 40 testemunhas —de acusação e defesa— devem ser ouvidas ao longo da semana e, ao final, Rosa Neto será interrogado. As audiências servem para a produção de provas orais e esclarecimentos no processo.
Veja a sequência dos depoimentos
- 29 de junho, às 9h30 (online): depoentes serão o delegado responsável pelo caso, Lucas de Souza Lopes, e uma vizinha do casal;
- 30 de junho, às 9h30: entre os depoentes estão policiais militares e uma testemunha protegida;
- 1º de julho, às 9h30: pais de Gisele (Marinalva e José Simonal de Santana), filha da PM (menor de idade, ela terá um depoimento especial), ex-companheiro e pai da filha da soldado, policiais militares e dois peritos criminais;
- 2 de julho, às 9h30: policiais militares, incluindo o coronel para quem Rosa Neto ligou após o disparo, e duas pessoas na modalidade virtual;
- 3 de julho, às 10h: três testemunhas escolhidas pela defesa de Rosa Neto serão ouvidas de forma virtual e, por fim, será realizado o interrogatório do tenente-coronel.
Relembre o caso

Gisele foi atingida por um tiro na cabeça no apartamento onde morava com o marido, no Brás, região central de São Paulo, em 18 de fevereiro. Ela foi socorrida em estado grave e levada ao Hospital das Clínicas, na capital. A morte foi constatada às 12h04 do mesmo dia.
Em depoimento, Rosa Neto afirmou que, no dia dos fatos, foi ao quarto de Gisele por volta das 7h para dizer que queria se separar. O homem afirmou ter dito que ainda a amava, mas entendia ser melhor se separar porque o relacionamento não estava funcionando. De acordo com ele, após a declaração, a esposa se levantou de forma "exaltada", mandou que ele saísse do quarto e bateu a porta. Ele alega ter pegado uma toalha para tomar banho em seguida.
Um minuto após entrar no banho, o PM declarou ter ouvido um barulho, que pensava ser uma porta batendo. Mas, ao abrir a porta, se deparou com Gisele no chão, ferida na cabeça e segurando a arma de fogo. Ele disse ter acionado o resgate, a Polícia Militar e ter ligado para um amigo que é desembargador. À polícia, o homem afirmou que a esposa se suicidou.
Mãe da vítima disse à polícia que o relacionamento da filha com Rosa Neto era "extremamente conturbado". Ela afirmou que o genro era uma pessoa abusiva e muito violenta, que proibia a vítima de usar batom, salto alto e perfume, além de cobrá-la rigorosamente para realizar várias tarefas domésticas.
O caso foi registrado inicialmente como suicídio consumado, mas a Polícia Civil alterou o registro para "morte suspeita" após o depoimento da mãe da vítima. A ocorrência foi investigada pelo 8º Distrito Policial e é apurada pela Corregedoria da Polícia Militar.
Corpo de Gisele foi exumado no dia 6 de março e passou por nova perícia e exames complementares. A perícia apontou que o corpo da soldado tinha "lesões contundentes" na face e na região cervical provocadas por pontas de dedos e escoriação compatível com a pressão de unhas. Um novo laudo pericial realizado pelo IML (Instituto Médico Legal) concluiu que as marcas foram provocadas por um adulto durante uma agressão.
Uma denúncia anônima registrada em um IPM (Inquérito Polícia Militar) apontou que Rosa Neto tinha "instabilidade emocional". Segundo o denunciante, ele perseguia, intimidava e ameaçava a esposa recorrentemente. A Corregedoria da Polícia Militar instaurou um IPM no dia 20 de fevereiro, dois dias após a morte da soldado, para apurar o caso.
Já mensagens extraídas do celular do PM revelaram episódios de ofensas, humilhações e até violência física praticadas por ele contra a esposa. Em um dos textos, Rosa Neto disse para Gisele o que considerava um relacionamento ideal, se autoelogiou e afirmou tratar a companheira como "todo macho alfa trata a sua esposa".
Em entrevista à Record TV no dia 11 de março, ele negou ter matado a esposa e declarou ter a consciência tranquila. "As pessoas têm inventado coisas, estou sendo atacado impiedosamente por inverdades. Não tenho nada para inventar ou mentir, trabalho com a verdade", disse na ocasião.
Rosa Neto está aposentado e foi transferido para a reserva. O pedido havia sido feito em abril e foi aceito pela corporação. Em junho, um despacho assinado pelo coronel da PM Antônio Thomazelli Júnior oficializou a medida e transferiu à SPPrev (São Paulo Previdência) a responsabilidade pelo pagamento da aposentadoria.
Em caso de violência, denuncie
Denúncias podem ser feitas pelo telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia, inclusive no exterior. A ligação é gratuita.
O serviço recebe denúncias, oferece orientação especializada e encaminha vítimas para serviços de proteção e atendimento psicológico.
Também é possível entrar em contato pelo WhatsApp (61) 99656-5008.
As denúncias também podem ser feitas pelo Disque 100, canal voltado a violações de direitos humanos.
Há ainda o aplicativo Direitos Humanos Brasil e a página da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH).
Caso esteja em situação de risco, a vítima pode solicitar medidas protetivas de urgência, previstas na Lei Maria da Penha.

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