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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Companheiro Grenaldo, a impunidade é a maior vergonha deste país.

 Camilo Vannuchi

Companheiro Grenaldo, a impunidade é a maior vergonha deste país.




Você era um militar da Marinha em 1964, um cara bom. Maranhense, tinha 22 anos e servia no Ceará quando deram o golpe. Meses depois, em setembro, membro da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, foi expulso da corporação e condenado a 5 anos de prisão por defender o governo democrático de João Goulart e se opor ao projeto dos golpistas. Conseguiu fugir, sabe-se lá como, e se mandou para Guarulhos (SP), onde construiu uma nova vida como porteiro, casou-se com Mônica e teve o único filho, também Grenaldo.
Foram cinco anos numa clandestinidade possível, até que, em 1971, te avisaram por carta que você havia sido descoberto e que a repressão estaria em teu encalço. Saiu de casa e começou a traçar um plano para conseguir resistir. Em 30 de maio de 1972, você arriscou tudo numa ação cinematográfica. Interceptou uma aeronave em Congonhas e fez todos os passageiros desembarcarem. Seu plano era voar até o Uruguai e, mais tarde, levar a família a seu encontro. Quando o último passageiro desceu, o avião foi invadido e os policiais conseguiram te imobilizar. Podiam te prender, mas preferiram dar um tiro na tua cabeça, disparado por um agente do DOI-CODI.
Segundo a versão oficial, você teria se suicidado naquela aeronave. Era 1972 e o Brasil vivia o auge do terrorismo de Estado. O laudo do IML, assinado por Sérgio Belmiro Acquestra e Helena Fumie Okajima, foi marcado com a letra T, de "terrorista", e teu corpo foi enterrado como indigente, no cemitério Dom Bosco, em Perus. Quatro anos depois, em 1976, teu corpo foi retirado da cova em que estava e despejado numa vala clandestina. Você desapareceu, Grenaldo.
A vala de Perus foi deflagrada apenas em 1990. Dela saíram 1.049 sacos com ossadas humanas não identificadas. Por mais de meio século, tua esposa e teu filho foram impedidos de saber a verdade sobre tua morte. Apenas em 2025, teus restos mortais foram identificados, graças aos esforços de CAAF, ICMP, CEMDP e MDH. Apenas seis pessoas identificadas até hoje entre as 1.049 ossadas ocultadas em Perus.
Nenhum canalha preso ou condenado.
Sinto muito por isso, Grenaldo.
Tente descansar, companheiro.