Essa e a verdadeira cara da nossa Segurança Publica
domingo, 1 de novembro de 2026
Mas os agentes ignoraram seus apelos. Naquela operação, homens negros estavam sendo amarrados uns aos outros pelo pescoço, como nos tempos da escravidão.
“Meu pai é trabalhador. Olha aqui a carteira dele.” Selma da Silva Santos chorava diante dos policiais, tentando provar que seu pai não era criminoso. Mas os agentes ignoraram seus apelos. Naquela operação, homens negros estavam sendo amarrados uns aos outros pelo pescoço, como nos tempos da escravidão. O mais revoltante é que isso aconteceu em 1982, no Brasil, 94 anos depois da Lei Áurea.
A cena ocorreu durante uma batida da Polícia Militar nos morros da Coroa e Cachoeira Grande, no Rio de Janeiro, quando o país ainda vivia sob a ditadura militar.
Segundo a reportagem publicada na época, 18 homens foram detidos numa operação que supostamente pretendia combater o tráfico de drogas. Alguns sequer tiveram a oportunidade de buscar seus documentos antes de serem levados.
Enquanto os policiais conduziam os detidos por cordas amarradas ao pescoço, mães, esposas e filhas protestavam, exibindo carteiras de trabalho para demonstrar que seus familiares eram trabalhadores.
Entre elas estava Terezinha Jesus América, de 60 anos, que implorava pela libertação do filho José Maria Américo, de 28.
Ele havia conseguido um novo emprego e começaria a trabalhar no dia seguinte. A mãe explicava, chorando, que precisava da ajuda dele para pagar as despesas de casa.
A justificativa apresentada pelos policiais tornou a situação ainda mais absurda.
O tenente Luís Cláudio, responsável pela operação, afirmou que não havia algemas suficientes e que, por isso, precisavam constranger psicologicamente os detidos.
Moradores que protestavam também foram ameaçados de prisão.
Foi nesse contexto que surgiu a fotografia que chocaria o Brasil, registrada por Luiz Morier, do Jornal do Brasil.
A imagem mostrava sete homens negros ligados por uma corda, enquanto um policial segurava uma das extremidades. A cena lembrava os registros de pessoas escravizadas conduzidas por seus captores no século XIX.
Mas havia um detalhe que tornava tudo ainda mais grave: posteriormente, constatou-se que os homens fotografados eram trabalhadores e não possuíam antecedentes criminais.
Eles acabaram liberados.
A fotografia foi publicada na primeira página do Jornal do Brasil em 30 de setembro de 1982, provocou indignação e conquistou o Prêmio Esso de Fotografia em 1983.
O registro ficou conhecido como “Todos Negros”.
Na reportagem original, uma das mulheres tentava convencer os policiais de que seu filho precisava trabalhar no dia seguinte. Outra erguia a carteira profissional do pai, procurando provar sua inocência.
Quase um século depois da abolição, aquelas famílias ainda precisavam apresentar documentos para defender seus parentes, enquanto homens negros eram conduzidos pelas ruas com cordas amarradas ao pescoço.
Obrigado pela sua preciosa atenção, querido leitor!
FONTES:
• Jornal do Brasil — PM prende e leva favelados pelo pescoço; reportagem de J. Paulo da Silva, 30 de setembro de 1982.
• Câmara Municipal de São Paulo — Anais da 649ª Sessão Ordinária, 30 de setembro de 1982. Reprodução da reportagem original do Jornal do Brasil.
• Instituto Moreira Salles — Luiz Morier, Testemunha Ocular.
• Associação Brasileira de Imprensa — Todos negros, 2006.
• Ynaê Lopes dos Santos — Ventre do Brasil. Instituto Moreira Salles, 2022.
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