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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

'Pé-inchado', miliciano foragido representa novo perfil desse crime no Rio

RIO DE JANEIRO

Chefe de bando escapou de operação policial que prendeu 159 suspeitos

9.abr.2018 às 17h42

A Polícia do Rio segue em busca do atual chefe da principal milícia do estado, a ironicamente intitulada Liga da Justiça e que atua no Rio e em municípios da Baixada Fluminense e da Costa Verde.
Wellington da Silva Braga, o Ecko, conseguiu fugir durante operação policial neste final de semana que prendeu 159 suspeitos de envolvimento com milícias, organizações formadas principalmente por policiais, ex-policiais e bombeiros que controlam com violência áreas pobres e obrigam moradores a contratarem serviços.
A Polícia Civil do Rio apreendeu 13 fuzis e 19 pistolas em ação prendeu 149 suspeitos de participarem de um grupo de milicianos em Santa Cruz, zona oeste do Rio
Polícia Civil do Rio apreendeu 13 fuzis e 19 pistolas em ação prendeu 149 suspeitos de participarem de um grupo de milicianos em Santa Cruz, zona oeste do Rio - Sérgio Rangel/Folhapress
​Ecko, também conhecido como Didil, assumiu a chefia do grupo em abril de 2017, após a morte de seu irmão, Carlos Alexandre Braga, o Carlinhos Três Pontes. Contra ele há um mandado de prisão pelo crime de homicídio. Quatro de seus seguranças morreram na operação.
Os irmãos Braga refletem uma mudança no perfil das milícias, que costumavam ser chefiadas por policiais, ex-policiais e bombeiros. São o que investigadores chamam de “pé-inchado”, aqueles que não são oriundos da polícia.
Segundo o Disque-Denúncia, Ecko lucra com o tráfico de drogas, coopta ex-traficantes para a quadrilha e tem perfil violento —teria um espaço onde comete tortura.
Investigações da Draco (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas) apontam que o grupo de Ecko tem aliança com traficantes da facção TCP (Terceiro Comando Puro). Funciona assim: os milicianos deixam os traficantes atuarem na favela, com a venda livre de drogas, mas exigem parte do lucro.

HISTÓRICO

No passado, a prisão de chefes da Liga da Justiça não conseguiu acabar com o grupo, como mostram as continuadas denúncias feitas por moradores da região controlada por ele.
A Liga da Justiça surgiu na zona oeste, nos anos 2000, e tem como símbolo o morcego do personagem de quadrinhos Batman, uma alusão ao apelido de um dos chefes da quadrilha, o ex-policial Ricardo Teixeira Cruz, hoje preso.
A Liga é considerada a milícia mais poderosa e a que mais conseguiu ampliar o seu território, a partir da absorção de outros grupos menores. 
Tem base em Campo Grande, na zona oeste, mas atua em outros bairros dessa região. Assim como outras milícias, obriga moradores de lugares pobres a contratarem serviços urbanos. Em 2015, a Polícia Civil estimava o lucro do grupo em R$ 1 milhão por mês com a exploração de serviços como segurança e ligações clandestinas de internet e TV a cabo em 12 bairros.
A quadrilha também invadiu conjuntos habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida, controlando quem ocupa os apartamentos.

Os métodos nos últimos anos se diversificaram —elas cobram por qualquer atividade que movimente dinheiro.

ALCANCE DAS MILÍCIAS

À primeira vista, milícias podiam representar, para moradores de lugares pobres e violentas, uma alternativa ao domínio do tráfico de drogas, que gera conflitos e tiroteios. No entanto, a repressão se dá de outras formas.
As milícias se multiplicaram e aumentaram o controle de território. Em 2004, seis favelas na capital eram controladas por milícias. Em 2014, eram 148 em 28 bairros.
No início restritas à capital, cresceram e estavam, em 2014, em pelo menos 23 dos 90 municípios do Estado, em 195 comunidades. Segundo dados de 2010, último Censo disponível, as milícias controlavam comunidades com 422 mil habitantes.
As autoridades dizem que darão uma resposta. “O cerco à milícia é uma tendência, ela vem ganhando corpo cada vez mais, e obviamente as autoridades locais do estado do Rio de Janeiro vão fazer esse enfrentamento com toda a responsabilidade e coragem necessários”, disse, nesta segunda-feira (9), o procurador Eduardo Gussem.
Colaborou THIAGO AMÂNCIO, no Rio

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